A Viagem do Elefante

by Jose Sarmago | Literature & Fiction |
ISBN: Global Overview for this book
Registered by marialeitora of Vila Real, Vila Real Portugal on 12/24/2008
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Journal Entry 1 by marialeitora from Vila Real, Vila Real Portugal on Wednesday, December 24, 2008
"Não é verdade que o céu seja indiferente às nossas preocupações e anseios. O céu está constantemente a enviar-nos sinais, avisos, e se não dizemos bons conselhos é porque a experiência de um lado e do outro, isto é, a dele e a nossa, já demonstrou que não vale a pena esforçar a memória, que todos a temos mais ou menos fraca. Sinais e avisos são fáceis de interpretar se estivermos de olho atento, como foi o caso do comandante quando sobre a caravana, em certa altura do caminho, caiu um rápido mas abundante aguaceiro. Para os homens da força, empenhados no penoso trabalho de empurrar o carro de bois, aquela chuva foi uma bênção, um acto de caridade pelo sofrimento em que têm vivido sujeitas as classes baixas. O elefante salomão e o seu cornaca subhro desfrutaram do súbito refresco, o que não impediu o guia de pensar no arranjo que lhe faria futuramente um guarda-chuva em situações como estas, principalmente no caminho para viena, de poleiro e protegido da água que caísse das nuvens. Quem não apreciou nada o líquido meteoro foram os soldados da cavalaria, habitualmente presumidos nas suas fardas coloridas, agora manchadas e pingonas, como se estivessem a regressar vencidos de uma batalha. Quanto ao comandante, esse, com a sua já provada agilidade de espírito, havia compreendido imediatamente que tinha ali um problema sério. Uma vez mais se demonstrava que a estratégia para esta missão fora desenhada por pessoal incompetente, incapaz de prever os acontecimentos mais correntios, como este de chover em agosto, quando a sabedoria popular já vinha avisando desde a noite dos tempos que o inverno, precisamente, é em agosto que começa. A não ser que o aguaceiro tivesse sido uma coisa de ocasião e que o bom tempo voltasse para ficar, tinham-se acabado as noites dormidas ao ar livre sob a lua ou o arco estrelado do caminho de santiago. E não só isso. Tendo de pernoitar em lugares habitados, era preciso que neles houvesse um espaço coberto para abrigar os cavalos e o elefante, os quatro bois, e umas boas dezenas de homens, e isso, como se pode calcular, era algo custoso de encontrar no portugal do século dezasseis, onde ainda não se tinha aprendido a construir naves industriais nem estalagens de turismo. E se a chuva nos apanha na estrada, não um aguaceiro como este, mas uma chuva contínua, daquelas que não param durante horas e horas, perguntou-se o comandante, e concluiu, Não teremos outro remédio que apará-la toda nas costas. Levantou a cabeça, perscrutou o espaço e disse, Por agora parece ter escampado, oxalá tenha sido só um ameaço. Infelizmente não tinha sido só um ameaço. Por duas vezes, antes de chegarem a porto salvo, se tal se podia chamar a duas dezenas de casebres afastados uns dos outros, com uma igreja descabeçada, isto é, só com meia torre, sem nave industrial à vista, ainda se lhe caíram em cima duas bátegas, que o comandante, já perito neste sistema de comunicação, interpretou logo como dois novos avisos do céu, decerto impaciente por não ver que estivessem a ser tomadas as medidas preventivas necessárias, as que poupariam à ensopada caravana resfriamentos, constipações, defluxos e mais do que prováveis pneumonias. Esse é o grande equívoco do céu, como a ele nada é impossível, imagina que os homens, feitos, segundo se diz, à imagem e semelhança do seu poderoso inquilino, gozam do mesmo privilégio. Queríamos ver o que sucederia ao céu na situação do comandante, indo de casa em casa com a mesma cantilena, Sou oficial de cavalaria em missão de serviço ordenada por sua alteza o rei de portugal, a de acompanhar um elefante à cidade espanhola de valladolid, e não ver senão caras desconfiadas, aliás mais do que justificadamente, dado que jamais se tinha ouvido falar da espécie elefantina por aquelas paragens nem havia a menor ideia do que fosse um elefante. Queríamos ver o céu a perguntar se tinham por ali um celeiro grande ou, na sua falta, uma nave industrial, onde se pudessem recolher por uma noite os animais e as pessoas, o que de todo não seria impossível, basta que recordemos a peremptória afirmação daquele famoso jesus de galileia que, nos seus melhores tempos, se gabou de ser capaz de destruir e reconstruir o templo entre a manhã e a noite de um único dia. Ignora-se se foi por falta de mão--de-obra ou de cimento que não o fez, ou se foi por ter chegado à sensata conclusão de que o trabalho não merecia a pena, considerando que se algo se vai destruir para construí-lo outra vez, melhor será deixar tudo como estava antes. Proeza, essa sim, foi o episódio da multiplicação dos pães e dos peixes, que se aqui chamamos à colação é tão-somente porque, por ordem do comandante e esforço da intendência da cavalaria, vai ser servida hoje comida quente para quantos humanos vão na caravana, o que não é pequeno milagre se considerarmos a falta de comodidades e a instabilidade do tempo. Felizmente não choverá. Os homens despiram as roupas mais pesadas e puseram-nas a secar em varas a jeito de que lhes aproveitasse o calor das fogueiras entretanto acendidas. Depois foi só esperar que o caldeirão da comida chegasse, sentir a consoladora contracção do estômago ao cheirar-lhe que a sua fome vai ser finalmente satisfeita, sentir-se um homem como aqueles outros a quem, a horas certas, como se de benéfica fatalidade do destino se tratasse, alguém vem servir um prato de comida e uma fatia de pão. Este comandante não é como outros, pensa nos seus homens, incluindo os colaterais, como se fossem seus filhos. Além disso, preocupa-se pouco com hierarquias, pelo menos em circunstâncias como as presentes, tanto assim que não foi comer à parte, está aqui, ocupa um lugar ao redor do lume, e, se até agora tem participado pouco nas conversas, foi só para deixar os homens à vontade. Aqui mesmo um da cavalaria acaba de perguntar o que tem andado na cabeça de todos, E tu, ó cornaca, que raios vais tu fazer com o elefante a viena, Provavelmente o mesmo que em lisboa, nada de importante, respondeu subhro, irão dar-lhe muitas palmas, irá sair muita gente à rua, e depois esquecem-se dele, assim é a lei da vida, triunfo e olvido, Nem sempre, Aos elefantes e aos homens, sempre, embora dos homens eu não deva falar, não passo de um indiano em terra que não é sua, mas, que eu conheça, só um elefante escapou a esta lei, Que elefante foi esse, perguntou um dos homens das forças, Um elefante que estava moribundo e a quem cortaram a cabeça depois de morto, Então acabou-se tudo aí, Não, a cabeça foi posta no pescoço de um deus que se chama ganeixa e que estava morto, Fala-nos desse tal ganeixa, disse o comandante, Comandante, a religião hinduísta é muito complicada, só um indiano está capacitado para compreendê-la, e nem todos o conseguem, Creio recordar que me disseste que és cristão, E eu recordo-me de ter respondido, mais ou menos, meu comandante, mais ou menos, Que quer isso dizer na realidade, és ou não és cristão, Baptizaram-me na índia quando eu era pequeno, E depois, Depois, nada, respondeu o cornaca com um encolher de ombros, Nunca praticaste, Não fui chamado, senhor, devem ter-se esquecido de mim, Não perdeste nada com isso, disse a voz desconhecida que não foi possível localizar, mas que, embora isto não seja crível, pareceu ter brotado das brasas da fogueira. Fez-se um grande silêncio só interrompido pelos estalidos da lenha a arder. Segundo a tua religião, quem foi que criou o universo, perguntou o comandante, Brama, meu senhor, Então, esse é deus, Sim, mas não o único, Explica-te, É que não basta ter criado o universo, é preciso também quem o conserve, e essa é a tarefa de outro deus, um que se chama vixnu, Há mais deuses além desses, cornaca, Temos milhares, mas o terceiro em importância é siva, o destruidor, Queres dizer que aquilo que vixnu conserva, siva o destrói, Não, meu comandante, com siva, a morte é entendida como princípio gerador da vida, Se bem percebo, os três fazem parte de uma trindade, são uma trindade, como no cristianismo, No cristianismo são quatro, meu comandante, com perdão do atrevimento, Quatro, exclamou o comandante, estupefacto, quem é esse quarto, A virgem, meu senhor, A virgem está fora disto, o que temos é o pai, o filho e o espírito santo, E a virgem, Se não te explicas, corto-te a cabeça, como fizeram ao elefante, Nunca ouvi pedir nada a deus, nem a jesus, nem ao espírito santo, mas a virgem não tem mãos a medir com tantos rogos, preces e solicitações que lhe chegam a casa a todas as horas do dia e da noite, Cuidado, que está aí a inquisição, para teu bem não te metas em terrenos pantanosos, Se chego a viena, não volto mais, Não regressas à índia, perguntou o comandante, Já não sou indiano, Em todo o caso vejo que do teu hinduísmo pareces saber muito, Mais ou menos, meu comandante, mais ou menos, Porquê , Porque tudo isto são palavras, e só palavras, fora das palavras não há nada, Ganeixa é uma palavra, perguntou o comandante, Sim, uma palavra que, como todas as mais, só por outras palavras poderá ser explicada, mas, como as palavras que tentaram explicar, quer tenham conseguido fazê-lo ou não, terão, por sua vez, de ser explicadas, o nosso discurso avançará sem rumo, alternará, como por maldição, o errado com o certo, sem se dar conta do que está bem e do que está mal, Conta-me quem foi ganeixa, Ganeixa é filho de siva e de parvati, também chamada durga ou kali, a deusa dos cem braços, Se em vez de braços tivessem sido pernas, podíamos chamar-lhe centopeia, disse um dos homens rindo-se contrafeito, como arrependido do comentário mal ele lhe saíra da boca."

Fiz um ring:

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Journal Entry 2 by EvaLunaSylva from Ribeira Brava, Madeira Portugal on Monday, October 19, 2009
Chegou, chegou!
Obrigada, Maria!

Journal Entry 3 by EvaLunaSylva from Ribeira Brava, Madeira Portugal on Monday, November 02, 2009
Confesso que dos livros que li do Saramago, foi o que menos me cativou.
A história é muito básica, sem grandes peripécias.
E agora o Sr. Saramago para além de não fazer parágrafos, estilo a que já nos tinha habituado, também não escreve os nomes próprios com letra maiúscula (será que anda a plagiar Valter Hugo Mae? lol)
Obrigada marialeitora pela partilha.
O livro seguiu hoje viagem para a Zuzaa.

Journal Entry 4 by zuzaa from São Domingos de Rana, Lisboa (distrito) Portugal on Tuesday, November 03, 2009
Chegou hoje! :) Tentarei não retê-lo muito tempo...

Journal Entry 5 by zuzaa from São Domingos de Rana, Lisboa (distrito) Portugal on Tuesday, December 01, 2009
Só conseguirei enviá-lo na próxima semana. Peço muito desculpa por ficar com ele mais do que 1 mês. Têm sido umas semanas complicadas...

Journal Entry 6 by zuzaa from São Domingos de Rana, Lisboa (distrito) Portugal on Tuesday, December 15, 2009
Gostei imenso de ler esta livro, apesar de não achar que seja dos melhores de Saramago. A ironia acutilante que o caracteriza está muito mais subtil e um pouco 'em baixo', por assim dizer. No entanto o pior de Saramago continua a ser o melhor de muitos outros autores, ou mesmo um patamar que poucos atingem. Mais uma vez, genial... :) Muito muito muito obrigada pela partilha!

Seguiu hoje para os CTT.

Journal Entry 7 by Cleopatra23 from Vila Nova da Telha, Porto Portugal on Thursday, December 17, 2009
Chegou hoje. Vamos ver se, de facto, é este o livro que me fará vencer a minha antipatia pelos livros de Saramago

Journal Entry 8 by Cleopatra23 from Vila Nova da Telha, Porto Portugal on Wednesday, February 10, 2010
Acabei de o ler agora mesmo.
Não consegui vencer a antipatia por Saramago mas, pelo menos, não achei tão chato como o Memorial do Convento, o que já é um ponto de melhoria... talvez depois de mais um livro dele a coisa melhore...
Obrigada pela partilha! Vou já contactar o ivosousa

19/2/2010 - O ivosousa não respondeu nem à Pm nem no fórum, por isso vou contactar o seguinte da lista

24/2/2010 - Segue hoje para o joeeandrade. Peço desculpa pela demora, mas com o pé partido é preciso convencer o meu marido a ir aos correios.

Journal Entry 9 by joeeandrade from Guarda, Guarda Portugal on Saturday, February 27, 2010
Chegou ontem.
A ler em breve.
Agradeço a partilha.

:-)

Journal Entry 10 by joeeandrade at Guarda, Guarda Portugal on Monday, September 13, 2010
Uma boa leitura.
Recomendo.
Agradecido pela partilha.
Segue para o próximo.

Journal Entry 11 by irus at Bragança, Bragança Portugal on Wednesday, September 22, 2010
Chegou ontem. Darei notícias em breve.
Obrigada marialeitora pelo empréstimo e joeandrade pelo envio rápido.

Journal Entry 12 by irus at Bragança, Bragança Portugal on Monday, November 15, 2010
Estava à espera de um pouco mais desta viagem. É natural que não haja muitas informações históricas, mas pareceu-me que Saramago muitas vezes se perdeu em divagações desnecessárias.
De qualquer forma, é impossível não sentir simpatia pelo cornaca Subhro, o personagem melhor conseguido.
O Elefante viajou hoje em direcção a VIla Real.

Journal Entry 13 by marialeitora at Vila Real, Vila Real Portugal on Friday, January 28, 2011
e já cá está há 500 anos ;)

tinha-me esquecido de fazer JE


(pronto para novas aventuras...)

Enviado à Pequete por causa de um troca-por-troca

Journal Entry 14 by Pequete at Bragança, Bragança Portugal on Saturday, May 14, 2011
Chegou ontem, mas só hoje pude fazer a JE. Obrigada pelo envio, marialeitura. Espero não demorar muito a pegar nele, apesar de a pilha TBR estar mesmo abominável.

Journal Entry 15 by Pequete at Bragança, Bragança Portugal on Thursday, May 14, 2015
Afinal demorei mesmo a pegar-lhe e como as expectativas eram altas, acabei por me sentir decepcionada. Achei a escrita rebuscada e palavrosa - quando aquilo que eu gosto/gostava no Saramago, era precsamente o oposto, a simplicidade da escrita. Não gostei do excesso de apartes disparatados, supostamente engraçados, mas a que não achei graça, um "puta" metido a despropósito, dá mesmo ideia que foi só para parecer irreverente, porque não lhe encontrei relação nenhuma com a linguagem usada no resto do livro, nem sequer me pareceu vir a propósito. Fiquei com a sensação que faltavam pontos de interesse para desenvolver a história e o texto foi-se perdendo em apartes e descrições supérfluos. Enfim, tendo em conta os livros que já li do Saramago, estava realmente à espera de muito mais.

Journal Entry 16 by Pequete at Leça da Palmeira, Porto Portugal on Friday, October 30, 2015

Released 4 yrs ago (10/30/2015 UTC) at Leça da Palmeira, Porto Portugal

CONTROLLED RELEASE NOTES:

Seguiu hoje para a LauMaia, de boleia no envelope da Troca de Halloween organizado pela MargardaPires.
Não me entusiasmou, mas como o vi na tua wishlist... quem sabe te agrada mais a ti do que a mim!

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