Regresso das Cinzas

by Ray Bradbury | Literature & Fiction |
ISBN: 9721054240 Global Overview for this book
Registered by pacithapis of Heringsdorf, Mecklenburg-Vorpommern Germany on 4/3/2007
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Journal Entry 1 by pacithapis from Heringsdorf, Mecklenburg-Vorpommern Germany on Tuesday, April 03, 2007
O tema do tempo, nas suas correlações com a vida e com a morte, é o grande inspirador do romance fantástico Regresso das Cinzas da autoria de Ray Bradbury, traduzido por Maria José Freire de Andrade (Publicações Europa-América, Colecção Nébula, 2004). Trata-se de uma obra escrita e retomada pelo autor, ao longo de cinquenta anos. Como Bradbury nos informa no Epílogo, desde a infância viveu com emoção as histórias que lhe eram contadas sobre os seus antepassados.

A narração de episódios da vida daqueles que já tinham morrido, terão imbuido as perguntas da criança curiosa ao longo dos dias ou dos serões da família vividos na velha Casa, onde passava férias. O mistério da ausência confundia-se com o concretismo do modo como os mortos da família eram, com frequência chamados ao convívio dos vivos. Quem diria que tinham morrido?

Ray Bradbury nunca esqueceu a lição que esses tempos, a afastarem-se cada vez mais da sua vida de adulto, lhe ofereceram. E talvez o que mais ficou gravado nele foi a ideia de que só morre quem é esquecido. Expressões como «memórias», «recordações», «tempo», aparecem com ênfase ao longo deste romance. Vejamos alguns exemplos: «as memórias, asas transparentes dobradas» (p.88); «o seu corpo jazia nas areias egípcias, mas a sua mente circulava, tocava» (p.88); «iluminado pelo sol e pelo luar da mente da Bisavó»(p.96); «Sem asas. Ela envia a sua mente»(p.184).

A função dos mortos é, nesta obra de Ray Bradbury, fundamental pela dinâmica que aqueles oferecem às sociedades. Porque eles não estão imóveis, as suas mentes deambulam no meio dos vivos. Não são um fardo, nem uma ideia a rejeitar, mas são uma forma de os vivos obterem, pelo poder do pensamento memorialístico, uma verdadeira libertação.

Essas personagens deixam de ser estranhos. Passam mesmo a ter uma realidade tão próxima dos vivos que quase já não se distinguem deles. E Bradbury define a sua importância quando uma das suas personagens afirma: «Nós somos os guardiães do Tempo(…)» (p.187). Ou: «Nós somos o celeiro da recordação obscura (…)» (p.187). E ainda: «apenas a morte pode libertar o mundo para que ele volte a viver»(p.188).

Mesmo assim, a personagem Timothy, tendo cohabitado com eles devido ao estratagema imaginado pela paixão de Cecy, recusa o seu mundo. Quer continuar a viver, apesar de saber que um dia morrerá, responde Timothy à Bisavó. Então, o conselho da Bisavó, com os seus quatro mil e quatrocentos anos, é cheio dessa sabedoria que o tempo longo foi construindo: «A melhor coisa a fazer, Timothy, na tua nova sabedoria (porque Timothy conhecera a sabedoria dos antigos) é viveres a tua vida ao máximo, gozares cada momento, e deixares-te, daqui a muitos anos, com a feliz consciência de que preencheste cada momento, cada hora, cada ano da tua vida, e sabendo que és muito amado pela Família» (p.192).

A experiência de Timothy, conduzido ao «tempo muito antes de existir alguém para escutar», tempo «vindo de nuvens vagabundas que iam para lugar nenhum, para algum lugar, para qualquer lugar, e fazia com que o sótão falasse sozinho, enquanto lançava sobre o seu soalho um jardim japonês de areia e pó» (p.24).

Tempos imemoriais que o tempo apagara, através da alma ou poder mental. É com esse poder espantoso que o amor de Cecy vence todas as limitações. Cecy jazia morta, mas a força do seu desejo amoroso vence a morte. A sua alma introduz-se na jovem Ann que não amava Timothy, precisamente ele que por Ann se tinha apaixonado. Então, Cecy tudo tenta para ser ela a corresponder à sua paixão. Ora responde por Ann, como se a voz daquela que vivia fosse mais fraca do que a sua, ora há um desencontro de vozes e torna-se impossível Cecy ser escutada por Timothy. O possível e o impossível lado a lado, procurando interpenetrarem-se, a tentarem contradizer-se e a aproximarem-se.

Este romance nasceu na infância do seu autor. A fase da vida humana em que o real e o irreal convivem com o encontro daquilo que é tão estranho e, ao mesmo tempo, tão evidente. Assim acontece em Regresso das Cinzas quando Ray Bradbury nos relata um diálogo entre a enfermeira e as crianças que corriam ruidosamente dentro do «barco»: « - Meninos está na hora de ouvir uma história!». E logo as crianças perguntam: « - Uma história de fantasmas?». Ao que a enfermeira responde, concludente: « - Vocês acreditam em fantasmas, certo?». Em uníssono, respondem todas: «- Oh, sim!».

Ao entrar num mundo de descoberta, num mundo que vai explorar pela primeira vez, a criança tende a encarar a realidade como uma única. Não há escalas para o real. O sonho, o irreal, a ficção, funcionam como fazendo de tal maneira parte da realidade, que dela não se separa. É por isso que a criança, ao ouvir falar dos mortos, pergunta onde estão, porque não estão ali, porque desapareceram…

À criança é acessível falar de mortos ou fantasmas ou figuras míticas. Nada lhe parece ser estranho. Tem uma visão tão concreta do mundo que a cerca, que tudo nele insere, sem recusar aquilo que perturba os adultos, aquilo que estes rejeitam, porque é uma memória negra, espectral, só possível em momentos-limite, momentos de rápida duração. No nosso tempo está na moda os psicólogos aconselharem o domínio total da emoção para se evitar sofrer, porque não se deve sofrer nem sequer, parece, por aqueles que nos amaram e que nós amamos. Afinal, não estarão a querer fazer-nos acreditar que não se deve sentir uma das mais importantes facetas da vida humana?…

Regresso das Cinzas oferece uma outra perspectiva do sentido da vida. É talvez uma chamada de atenção para valores em vias de serem esquecidos na sociedade tecnológica em que nos inserimos. Estamos, de facto, numa época em que se cultivam os mitos da longevidade, da juventude e da saúde até ao exagero. Assim, as pessoas tendem, por exemplo, a excluir os velhos, esquecendo que eles apenas atravessam uma fase da sua vida, tal como atravessaram a fase da juventude.

Refiramos, a propósito, o exemplo recente, em Portugal, da classificação de «regiões de morte social» no que toca a regiões há muitas décadas em estado de despovoamento por parte dos jovens que nelas não encontram as mesmas condições das cidades do litoral ou do estrangeiro. Agora, regiões onde predomina a velhice são de imediato denominadas «regiões de morte social». Como se o predomínio da velhice fosse motivo para tão drástico apelativo. Parece que os velhos se identificam já com mortos, mortos indesejáveis, quem sabe se a deambularem como fantasmas enfadonhos para o enojamento dos humanos.

O culto do hedonismo e do consumismo aterrorizam facilmente aqueles que vêem nas faces enrugadas e nas pernas esqueléticas a possibilidade das suas próprias representações futuras. Em Regresso das Cinzas, Ray Bradbury dá um grito de alerta a esta sociedade global em que os velhos são desprezados, olhados como um pesadelo e não como um factor de ressurgimento junto dos jovens.

É urgente reabilitar os conceitos de vida em que a dignidade humana seja prioritária. A qualidade de vida tem de abranger novos e velhos. Uns e outros são desejáveis nas regiões onde os obstáculos são enormes.

Como escreve Ray Bradbury, a «vida é uma visita rodeada de sonhos»(p.161). O nascimento e a morte usufruem de um espantoso paralelismo. A saúde e a doença vivem confrontando-se. A velhice e a juventude completam-se, como se fossem partes de um único todo.

E se a vida tem um sentido, a velhice e a morte também o têm. Escreve Ray Bradbury: «Os fins de tarde são amados porque desaparecem. As flores são amadas porque se vão (…) no coração dos bons-dias matinais e das gargalhadas da tarde, encontra-se a promessa do adeus. No focinho cinzento de um cão velho, vemos um adeus. No rosto cansado de um velho amigo lemos longas viagens sem regresso» (p.159). Esta uma das passagens mais significantes deste romance em que a ficção fantástica assume um dos seus pontos mais altos. Trata-se de uma escrita plena de beleza poética e metafórica, em que o autor contribui para a elevação e fortalecimento do sentido da vida, colocando-a sempre com o contraponto da memória dos velhos e da sua sabedoria.

Aqui, as raízes da sabedoria dos antigos consolidam-se. Mas, «com a passagem do tempo, um homem jovem surgiu na estrada, como alguém emergindo de um sonho ou saindo das marés calmas de um mar silencioso, e encontrou-se numa paisagem estranha, olhando para a Casa abandonada, como se soubesse mas desconhecesse o que esta tinha, em tempos, contido.» (p.195).

Em Regresso das Cinzas a leveza incerta e incauta das horas e dos dias das crianças ganha o esplendor da recordação de «um milhar de tardes» (p.14). Um «milhar de tardes» repetidas sem fim por Tempos a passarem, sem que as sociedades demasiado apressadas dos nossos dias, se voltem e vejam os tesouros ocultos nelas e a descobrir.

Teresa Ferrer Passos



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Apanhei-o na OCZ na Biblioteca dos Olivais, mas não estava registado no Bookcrossing. Vou libertá-lo em breve :)

Journal Entry 2 by Jota-P from Sacavém, Lisboa (distrito) Portugal on Wednesday, September 12, 2007
A pacithapis passou-me este livro por achar que eu vou gostar dele. Assim que tiver possibilidade lê-lo-ei e depois virei aqui dizer o que achei dele.

Como não parece ser de leitura muito difícil, espero não demorar muito tempo a lê-lo!

Journal Entry 3 by Jota-P from Sacavém, Lisboa (distrito) Portugal on Friday, January 18, 2008
E como proximamente não terei tempo para o ler, vai seguir viagem pelo mundo fora, à procura de novos amigos.

Aqui estão as regras para um BookRing bem sucedido:

1. Este é um livro de fácil leitura, por isso não precisarão de muito tempo para o ler. Em todo o caso, façam-no de acordo com o vosso ritmo próprio. Mantenham-nos é actualizados quanto ao seu estado para sabermos que não se esqueceram dele.

2. Façam uma "Journal Entry" quando receberem o livro e outra quando acabarem de o ler, com a vossa opinião, o mais completa possível.

3. Estão completamente à vontade para sublinharem e fazerem notas à margem do texto, mas se o fizerem, façam-no a lápis. E se quiserem, podem escrever um pequeno comentário na última página em branco, bem como o nome ou screen name e a data em que acabaram de ler.


Este livro vai passar pelas mesinhas-de-cabeceira de:
- Moonwoolf / Taelsin
- eeeemaaaaaa
- kizmiaz

Journal Entry 4 by Jota-P from Sacavém, Lisboa (distrito) Portugal on Monday, January 21, 2008
Seguiu hoje de manhã para a MoonWoolf. Espero que gostem!

Journal Entry 5 by Moonwoolf from Azambuja, Lisboa (distrito) Portugal on Tuesday, January 22, 2008
Já cá está. Apenas tenho um livro à frente para acabar de ler, depois pego neste. Obrigada pela partilha.

Journal Entry 6 by Moonwoolf from Azambuja, Lisboa (distrito) Portugal on Tuesday, February 12, 2008
Acabei de o ler. É um livro interessante, mas penso que falta algo. Talvez tempo para o melhorar.... Uma familia curiosa e estranha; possivelemnte tal como todas as nossas familias.. No inicio é algo confuso, leva algumas paginas até percebermos bem o que se passa; mas depois de entrarmos na história até se revela bem interessante. Mas acho que este autor já fez melhor realmente. Espero ler outros para ter outra perspectiva do seu trabalho.
Obrigada pela partilha.
Já está pronto para seguir viagem.

Journal Entry 7 by Taelsin from Azambuja, Faro Portugal on Tuesday, February 12, 2008
Ora bem o que dizer deste livro? Ao princípio confuso e desconexo! Se estivermos presos a uma lógica racionalista o livro não tem um fio condutor. No entanto, se olharmos para o aspecto global, fala de um dos grandes problemas da humanidade ao longo dos tempos, e que ainda hoje se revela: a dificuldade em lidar com o que é diferente. Ray fala de uma família diferente, de uma família de mortos que adoptaram um humano vivo, o único ser normal no seio da família, que acaba por não se enquadrar, apesar de ser amado e acarinhado. Em suma a família por retaliação de um membro da família mal amado, invejoso, por não ser aceite é denunciada à comunidade humana que corre a exterminar o mal da casa... Apenas fica a cinza e a memória da casa... Uma boa leitura.. e uma lição para quem quiser aprender

Journal Entry 8 by Moonwoolf at on Thursday, February 14, 2008

Released 11 yrs ago (2/13/2008 UTC) at

WILD RELEASE NOTES:

RELEASE NOTES:

Já seguiu viagem!

Journal Entry 9 by eeeemaaaaaa on Monday, February 18, 2008
Acabei de receber, vou tentar ser breve :)

Journal Entry 10 by eeeemaaaaaa on Thursday, February 28, 2008
Gostei imenso, não se tornou confuso no início pois com os comentários do Taelsin fiquei enquadrada na história...embora seja um tema que normalmente não me seduz acabei por gostar pois está muito bem escrito, mesmo se por vezes parece desconexo...acaba tudo por se conjugar..esperava outro final...mas isso..eu soumesmo assim ..lol...segue hoje ou amanhá para o Kizmiaz...obrigado JP pela partilha e Moonwoolf pelo envio :)

Journal Entry 11 by kizmiaz from Belém , Lisboa (cidade) Portugal on Friday, March 14, 2008
Recebi hoje, obrigado Jota-P e eeeemaaaaa, mas ainda tenho dois para ler antes de pegar neste.

Journal Entry 12 by kizmiaz from Belém , Lisboa (cidade) Portugal on Tuesday, March 25, 2008
Mais uma viagem pela mente sinuosa de um grande autor.
Tal como já foi aqui referido o livro não tem um fio condutor no sentido tradicional das narrativas e também não é um dos melhores livros do autor, no entanto é uma boa história, com algumas falhas na concretização, e fácil de acompanhar.
Gostei da base da história e do facto das diferenças óbvias dos membros desta família, perante as outras familias que por aí há, se esbaterem quando comparadas entre si, gostei também da ideia que a descrença popular poderia vir a exilar aquelas criaturas de pesadelo mas… e há sempre um mas, a concretização destas ideias não me pareceu a melhor, especialmente devido ao facto de já ter lido obras muito melhores deste autor.
De realçar que o facto de alguns dos capítulos já haverem sido publicados anteriormente pode ter contribuido para a sensação que esta é uma "história de remendos", ainda assim são por vezes melhores os "remendos" do que o material original.
Valeu a leitura sem dúvida mas o resultado geral fica aquém do esperado.
Segue para o Jota-P assim que tiver a sua morada.

Journal Entry 13 by Jota-P from Sacavém, Lisboa (distrito) Portugal on Tuesday, April 01, 2008
E já está de volta! Espero que ele tenha gostado desta pequena viagem. Fica agora à espera de ser lido, ou quem sabe, libertado.

Journal Entry 14 by Jota-P from Sacavém, Lisboa (distrito) Portugal on Thursday, August 28, 2008
Adicionei este livro à Caixa de Livros Rumo à Liberdade organizada pela butterfly-noir. Como ninguém o aceitou, tenho a liberdade de fazer com o ele o que quiser. Decidi, portanto, libertá-lo ao vento.

Journal Entry 15 by Jota-P at Jardim do campo Pequeno in Lisboa - City, Lisboa (cidade) Portugal on Thursday, August 28, 2008

Released 10 yrs ago (8/28/2008 UTC) at Jardim do campo Pequeno in Lisboa - City, Lisboa (cidade) Portugal

WILD RELEASE NOTES:

WILD RELEASE NOTES:

Num dos bancos do jardim...

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