O Retorno

by DULCE MARIA CARDOSO | Literature & Fiction |
ISBN: Global Overview for this book
Registered by wingcontowing of Lisboa (city), Lisboa (distrito) Portugal on 11/17/2012
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Journal Entry 1 by wingcontowing from Lisboa (city), Lisboa (distrito) Portugal on Saturday, November 17, 2012
Uma cuidada e lindíssima edição da Tinta da China (é um ainda maior prazer ler livros assim).

Sinopse:
"1975 Luanda. A descolonização instiga ódios e guerras. Os brancos debandam e em poucos meses chegam a Portugal mais de meio milhão de pessoas. O processo revolucionário está no seu auge e os retornados são recebidos com desconfiança e hostilidade. Muitos não têm para onde ir nem do que viver. Rui tem quinze anos e é um deles.
1975. Lisboa. Durante mais de um ano, Rui e a família vivem num quarto de um hotel de 5 estrelas a abarrotar de retornados — um improvável purgatório sem salvação garantida que se degrada de dia para dia. A adolescência torna­-se uma espera assustada pela idade adulta: aprender o desespero e a raiva, reaprender o amor, inventar a esperança. África sempre presente mas cada vez mais longe."

Journal Entry 2 by wingcontowing at Lisboa - City, Lisboa (cidade) Portugal on Saturday, November 17, 2012
Este livro retrata uma realidade que, apesar de contemporânea, praticamente me passou ao lado. Não me lembro de ter conhecido retornados nem de este ser um problema nos anos da minha infância e adolescência. Só mais tarde comecei a perceber que tinha amigos que tinham nascido em Moçambique ou em Angola...
Estranho, eu sei.
Mas gostei muito de assim ter oportunidade de "tapar este buraco", de uma forma tão intensa, de uma forma que me pareceu tão realista, tão... visceral.

Excertos da crítica de João Bonifácio (aqui: http://ipsilon.publico.pt/livros/critica.aspx?id=294668), de que gostei muito:

"Isto durou anos. A meio da década de 80 (...) ainda usávamos a palavra “retornado” nas discussões. Foi preciso ir para a faculdade (...) para perceber que a violência com que tínhamos crescido era ainda mais complexa, que tínhamos, “nós” também, sido racistas. Que a ferida era muito maior do que imaginávamos, que a suposta superioridade moral dos nossos pais - que não odiavam os pretos - estava longe de ser imaculada.
É aqui que entra a literatura. Quem não viveu a guerra podia aproximar-se dela pelos ditos de familiares, mas a verdade é que quem lá esteve não fala muito disso. Mas houve “Os Cus de Judas”, de Lobo Antunes.
E agora, com este “O Retorno” de Dulce Maria Cardoso, acontece outra vez. O país que nunca soube lidar com a sua própria agressividade, o país neurótico, que diz de si mesmo “Eu sou brando e justo” tem de confrontar-se com a sua violência.
“O Retorno” é a narração da saga dos retornados em 1975. Centrado numa família de quatro elementos (pai, mãe, filha mais velha e um rapaz mais novo, o Rui), estende-se longamente numa primeira parte em que a família está prestes a abandonar Angola(...).
O que torna o romance verdadeiramente extraordinário não é o seu “realismo”, é antes o seu grau alucinatório. De forma inteligente, Dulce usa como narrador o miúdo, o que lhe permite inundar a narrativa das dúvidas e dos exageros de quem conhece o “real” por intermédio do que os pais lhe ensinam. O ritmo é assombroso, uma locomotiva disparada, em que ligeiras mudanças de narrador permitem que se ouça a voz do pai, da mãe, da irmã, do tio Zé que é homossexual e a favor dos pretos.
(...) A narrativa é uma coisa minúscula: a família sai de Angola, o pai fica, a mãe acredita que o pai não foi morto e vai voltar, ficam instalados, como muitos outros retornados, num hotel do Estoril, mãe, filha e filho no mesmo quarto. O hotel torna-se, de certo modo, uma personagem em si mesma: o Império reduzido à sua condição real, repleto dos seus despojos, prestes a auto-consumir-se numa vertigem de ressentimento, raiva e justa tristeza.
(...) o que há de comovente, de estupidamente doloroso e comovente, em “O Retorno”, não é a capacidade de nos fazer identificar com esta ou aquela personagem. É a capacidade de nos fazer sentir a perda. (...) (Se quisermos, podemos dizer que Dulce ataca uma questão essencial dos nossos dias: a impossibilidade de “ser”. É possível alguém dizer como está, como se apresenta ao mundo e a si próprio, mas todos são impotentes para dizer o que “são”.) É isso que, com uma meticulosa gestão da entrega da informação, com um espantoso olho para o detalhe, Dulce Maria Cardoso faz: coloca-nos na posição de quem viu a sua identidade fendida, de quem não sabe (literalmente) de que terra é, de quem não é olhado como um indivíduo mas sim como uma coisa. Ela nunca transforma os retornados em “pessoas boazinhas”. Simplesmente oferece-nos pessoas, inteiras.
No seu melhor, a literatura cria uma narrativa, um encadeamento de factos mínimos, que nos leva a concluir que mesmo que isto não nos tenha acontecido “podia” ter-nos acontecido, “pode” vir-nos a acontecer. A esse “poder” corresponde o medo da morte.
É muito, muito difícil um livro assustar-nos e comover-nos desta forma. Comover-nos com a fragilidade daquela mãe, com a sua necessidade de acreditar que o pai vai voltar. Comover-nos com as lágrimas de uma miúda que é apalpada por ser retornada. Com a amizade entre o puto e o porteiro do hotel que lhe oferece uma bicicleta velha. Com aquela irmã que tenta fingir que é de “cá”."

Vai até casa da mãe da I. (uma das retornadas que tão tarde descobri sê-lo) que o quer ler.
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Regressou, depois foi lido por Nin-guém que, apesar de não ter aqui vindo dizer nada, gostou muito também.

Journal Entry 3 by wingcontowing at Lisboa - City, Lisboa (cidade) Portugal on Wednesday, February 12, 2014
Vai agora passear até à Alemanha, ter com a C., a quem eu já tentei "vender" o bookcrossing (até porque acho que lhe ía dar imenso jeito na vida de expatriada e na aprendizagem de uma nova e difícil língua) mas que não sei se será conceito para ela.

Seja como for, vou tentar que ela venha aqui dizer o que pensa desta leitura, ainda que não se registe e o faça como anónima.

Journal Entry 4 by wingAnonymousFinderwing at Lisboa - City, Lisboa (cidade) Portugal on Tuesday, March 04, 2014
Está comigo, estou a ler neste momento. Darei uma resposta sobre o que achei quando acabar.

Journal Entry 5 by Celinha at Braunschweig, Niedersachsen Germany on Sunday, July 27, 2014
Nunca tinha lido nada desta autora e o livro foi-me enviado pelo correio para a minha casa na Alemanha por uma amiga querida, muito mais versada do que eu em literatura e que faz sempre questão de me lançar desafios. “Espero que gostes, não conheço ninguém que não tenha gostado” foram as palavras dela.

Esta escritora tem uma escrita peculiar, na qual as frases são intermináveis e uma só frase contém vários assuntos ou estados de espiríto diferentes. Isto pode parecer estranho e dissuador, mas a mistura do passado com o presente, das lembranças com a realidade, do que é agora e do que vai ser o futuro, interliga-se maravilhosamente bem e dá-nos imenso prazer de ler.

Com este livro aprofundei um tema que não tinha ainda cruzado o meu caminho, os “retornados”, a própria expressão depreciativa e diferenciadora. Percebi o porquê de "fugirem só com a roupa do corpo", quando poucos sinais havia em Luanda da chacina que havia de se tornar para os brancos. A luta pela vida que passava por arranjar um lugar num avião rumo a Lisboa. Conheci melhor o IARN, que financiou os hóteis de luxo, para receber os milhares de pessoas que fugiram de Angola e chegaram a Portugal sem nada.

Com este livro sentimo-nos “retornados”, sentimos na pele os olhares jocosos nas nossas roupas coloridas, que tanto destoam da multidão vestida de preto, castanho e cinzento. Sentimos a diferença da temperatura e zangamo-nos com o “ladrão do corpo” que se habituou à água quente e nada quer com a água das praias portuguesas.

Sentimos o desgosto de se vender o pouco que se trouxe, a discriminação nas escolas quando a professora diz “Alguém aí, da fila dos retornados…” como se os alunos não tivessem nome. Sentimos que perdemos tudo e que Lisboa não é o que imaginávamos, que as pessoas “de cá” não gostam de nós e nos diferenciam, agridem-nos verbalmente e não nos ajudam. As expressões deliciosas que fazem parte de quem nasceu em Angola e que não encontram eco em Portugal, como “Mataco”, “Ginga ginga”, “Matumbos”, Bebida “Ye Monks”, “Xícululos” e por aí fora.

Um livro delicioso que me ensinou muito e que espero em breve ler outros livros desta autora. Passem os olhos por este livro maravilhoso “O retorno” da Dulce Maria Cardoso e da editora Tinta da China, vale mesmo a pena.

Journal Entry 6 by wingcontowing at Lisboa (city), Lisboa (distrito) Portugal on Tuesday, July 18, 2017
Devolvido pela Celinha, foi agora entregue à R (outra não BCer que o devia ser) para leitura de férias.
Espero que gostes, 'pariga!

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