Clube Literário de Gaia - Maio 2014 - "O cónego" com A. M. Pires Cabral

Forum » Portuguese - Português | Refresh | Search

Sort Options 

Complete Thread
A tertúlia da passada sexta-feira foi bastante diferente das anteriores.
Por um lado foi a menos concorrida: éramos 14 pessoas mas, se excluirmos o rapaz que foi convidado para ler poemas do autor e a rapariga que o vinha a acompanhar, mais os dois sócios da livraria que estavam só no papel de anfitriões, temos um saldo líquido de 10 leitores, 5 dos quais são os organizadores do clube.
Por outro lado, e paradoxalmente, foi a que teve o autor mais consagrado. Se é praticamente desconhecido do grande público (eu incluída até há pouco tempo), a verdade é que António Manuel Pires Cabral é autor de uma vasta obra, incluindo romances, contos, teatro e poesia, e recebeu pelo menos sete prémios literários, dos quais o mais recente foi o Prémio Autores SPA 2014 para Melhor Livro de Poesia.
Talvez por antecipar a fraca adesão ao evento, a organização decidiu incluir a leitura de alguns dos poemas do autor ao longo da tertúlia, o que também foi uma novidade.

Ao fazer a apresentação, Miguel Miranda referiu em jeito de brincadeira que o autor desenvolveu uma estratégia de marketing que consiste em criar uma aura de mistério à sua volta. Ele raramente aparece em eventos públicos e foi preciso muita persuasão para o convencer a vir à nossa tertúlia. Acrescentou ainda que quando mencionou aos Booktailors (organizadores do festival literário LeV, que decorreu este fim-de-semana em Matosinhos) que não podia ir à sessão inaugural do festival porque tinha uma tertúlia do clube literário com o autor AM Pires Cabral, eles ficaram cheios de inveja porque nunca o conseguem convencer a participar nos seus eventos.
Mas, se tudo isso é verdade, não será decerto por timidez do autor. AM Pires Cabral, com 72 anos, revelou-se muito conversador e um excelente contador de histórias, o que felizmente compensou a escassez de intervenções pelo lado dos leitores.

Falando do romance em discussão, como já escrevi noutra thread, "O cónego" retrata uma aldeia de Trás-os-Montes nas primeiras décadas do século XX.
O narrador (que nos fala na década de 40) é um padre recém-ordenado que acabou de ser colocado a paroquiar aquela aldeia e que fica intrigado com a história do cónego, que falecera uns anos antes e que é mencionado em quase todas as conversas que tem com os paroquianos.
Como os vários relatos sobre o cónego raramente coincidem, o jovem padre fica obcecado em perceber quem foi realmente aquele homem e o livro acaba por ser também uma reflexão sobre o que é afinal a verdade.
Um dos principais contribuintes para a reconstituição da história do cónego é o pároco anterior da aldeia, que se encontra acamado e que vai distraindo a morte entretento-se com a tarefa de contar a sua versão dos factos.

A aldeia do livro, Vilarinho dos Castelhanos, é fictícia mas todos os outros lugares são reais e há pormenores históricos que vão aparecendo aqui e ali: a implantação da República, a tentativa de restauração da monarquia por Paiva Couceiro, as aparições de Fátima, o 28 de Maio de 1926, etc.
Em relação à parte ficcional do livro, o autor disse que, se para Camilo escrever era recordar, para si a escrita é mais fruto da imaginação do que da recordação. No entanto, há um facto central, a partir do qual o livro nasceu e cresceu, que é baseado numa história verdadeira. Na aldeia dos seus pais existiu um cónego que teve duas filhas (uma das quais veio a casar com um tio do autor) e que a certa altura foi visitado pela mãe das filhas a pedir que contribuisse mais para o seu sustento. Essa visita e a forma como a mulher foi tratada, bem como o encontro no comboio na viagem de regresso a casa e as consequências desse encontro, aconteceram tal como descritos no livro (a única diferença é que o cónego do livro teve apenas uma filha).

Uma das actividades frequentemente mencionadas no livro é a caça. O Miguel Miranda perguntou ao autor se ele tem experiência de caçador, o que despoletou uma série de histórias.
O pai do autor era um grande caçador, mas deixou de o ser quando ficou cego de um olho com um tiro disparado por um amigo que não tinha reparado que havia alguém atrás da ave que tentava atingir.
Ele próprio também quis experimentar, pegou na arma do pai e saiu várias vezes a tentar a sorte. Não tinha cão, o que lhe dificultava bastante a tarefa, mas um dia lá conseguiu matar uma perdiz. No entanto, logo de seguida pensou "mas que mal é que esta perdiz me fez?" e nunca mais voltou a caçar.
Ele tem dois amigos, que são irmãos e que são grandes caçadores (e que por acaso também são padres). Os dois irmãos costumam ir caçar principalmente perdizes. Um dia estavam à caça na zona de Vimioso e não viam nenhuma perdiz. Normalmente voltavam com mais de 10 perdizes e estavam a estranhar não conseguir encontrar nenhuma. De modo que decidiram perguntar a uma velhota que andava a apanhar lenha se não havia perdizes naquela zona, ao que a mulher respondeu:
-Ele haver, havia-as, mas vêm para aí dois filhos da puta de dois padres de Vila Real que desapareceram com elas!
[Peço desculpa pela linguagem mas estou a ser fiel ao que se passou :)]

 

Outro tema mencionado no livro é o da tentativa de restaurar a monarquia e das tensões entre monárquicos e republicanos. O cónego é um defensor acérrimo da monarquia e pega em armas para ajudar Paiva Couceiro na causa monárquica apoiando a "Monarquia do Norte" instaurada em 1919 e rechaçada poucos dias depois através do que ficou conhecido como a "Traulitada". Interpelado sobre a questão, o autor disse-se republicano, como o pai também já era, mas chamou-nos a atenção para o facto de que, tendo ele nascido em 1941, enquanto criança e jovem a memória da Traulitada estava ainda bastante fresca e era mencionada frequentemente pelas pessoas que o rodeavam (mais ou menos como o 25 de abril para nós). Daí ser impossível escrever um livro situado naquela altura e naquela região sem mencionar esse acontecimento histórico.

De resto, na verdade não se falou muito do livro. A maior parte dos presentes disse-se sem palavras: admitiram com alguma vergonha que nunca tinham lido o autor, ficaram muito surpreendidos com a leitura, leram o livro devagarinho para saborear melhor a descoberta e adiar o momento final o máximo possível e ficaram com vontade de ler toda a sua obra.
Pires Cabral foi dizendo que estavam a exagerar e que não o fizessem corar, mas os elogios desta natureza sucederam-se.
O autor sente-se sobretudo injustiçado com os rótulos habituais de "maior escritor de Trás-os-Montes" ou "grande escritor regionalista", que o incomodam sobremaneira. Preferia que deixassem cair o "grande" e o "maior" juntamente com a região e o rotulassem simplesmente de "escritor". É isso que ele acha que é.

Em relação a influências literárias, o autor disse que se considera herdeiro de Camilo, "salvaguardadas as devidas distâncias". Aquilino é "outro dos santos a quem reza", mas Camilo é para ele o escritor português número um. E isso também se nota n'"O Cónego" com o nome do escritor a ser frequentemente mencionado, normalmente com o olhar desaprovador do jovem padre ao reparar na estante de alguém.

Questionado sobre se costuma ler Camilo, ele disse que sim e que também já chegou à idade em que se deixa de ler para se começar a reler os livros que foram mais marcantes. Por vezes a releitura de uma ou outra obra desilude e ele fica a pensar "Como é que eu pude gostar disto?" mas muitas outras vezes sente o mesmo prazer da primeira vez.

 

E que vontade de ter estado lá e que vontade de conhecer esse Senhor.
Já te tinha dito que me candidatava a ler o livro, mas agora reforço a ideia, porque a vontade também foi reforçada com esta tua crónica.

Um à parte, acho que no final deste conjunto de tertúlias, devias compilar estas tuas crónicas de alguma forma - valem muito a pena!!

 

Obrigada conto. Considero-te a minha fã nº1 ;)

Quanto ao livro, neste momento está nas mãos da colega que costuma acompanhar-me às tertúlias, mas que não conseguiu aparecer desta vez.
Assim que voltar para mim, eu ponho-o a circular aqui.

 

Obrigada conto. Considero-te a minha fã nº1 ;)

É, acho que podes, hehehhh!

Quanto ao livro, neste momento está nas mãos da colega que costuma acompanhar-me às tertúlias, mas que não conseguiu aparecer desta vez.
Assim que voltar para mim, eu ponho-o a circular aqui.

Na boa, não tenho pressa nenhuma. Eu quero ler tudo, mas ando a ler pouco e tenho aqui carradas de coisas que "quero mesmo" ler, por isso já vês... ai, so much to read, so little time.

 

Que bom ler-te e descobrir por ti estes autores e essas histórias deliciosas. Fico à espera do próximo autor. Já sabes quem é?

 

Sim, o próximo autor é Sérgio Almeida com um livro de contos chamado "Não conto"
http://www.thesaurus.com.br/---/nao-conto/
Está um pdf disponível no site com os primeiros capítulos.

Confesso que nunca tinha ouvido falar neste autor.
O livro foi publicado no Brasil (por aquela editora do link, Thesaurus) e não se encontra à venda em Portugal, a não ser na Livraria Velhotes em exclusivo para o Clube Literário.

Já comecei a ler e até agora não estou a gostar muito mas, como são contos, talvez apareça um ou outro de que goste mais.
Estou é muito intrigada com as notas de rodapé: elas parecem ter sido adicionadas para esclarecer os leitores brasileiros sobre eventuais expressões de Portugal que não conhecessem, mas há algumas sem pés nem cabeça.
Se quiserem perceber o que quero dizer, podem descarregar o pdf e ver as notas, em particular a 10, a 13 e a 15.

ETA a nota mais hilariante até agora.
O texto diz: "O ritual incluía o estudo aturado de guias, roteiros e atlas relacionados com o destino em causa."
A nota diz: "Aturado de guias= agüentar com resignação os guias" :D

 

E fiquei curiosa com o livro. Esta tertúlia deve ter sido muito divertida, com tantas histórias partilhadas!

 

Eu sou o teu fã nº2, pode ser? Continua a relatar-nos as tertúlias. Confesso que os livros e os autores escolhidos não me chamam muito a atenção, mas gosto muito de ler estes teus relatos.
A melhor maneira de os compilares, seria num blog, talvez (?)

Continua a ir às tertúlias e a partilhá-las connosco!

 

Por acaso já tinha tido essa ideia de publicar os comentários num blog mas acho que teria de adaptar um pouco os textos...
Eu sei que aqui também ficam públicos mas tenho a sensação, se calhar ridícula, que num blog ficariam mais expostos e teria de ter mais cuidado com o que digo. :)

 

marialeitora 4 yrs ago
;)
Não tenho tido muito tempo e "guardei" este teu texto para ler agora, até porque fala de Pires Cabral figura muito querida cá por Trás-os-Montes.
Uma vez por mês tenho uma reunião de uma "comunidade de leitores" que se reúne na Biblioteca de V.Real. Não se pode dizer que seja um "clube" porque aquilo é um pouco anárquico (no bom sentido) e vamos partilhando livros e autores e são sempre conversas muito interessantes. Em Abril fizemos 2 anos de existência e convidamos...Pires Cabral. Tinha acabado de ser apresentado o seu livro de poemas:" Gaveta do fundo" e falamos dele mas também de outros livros do autor/poeta/escritor. É uma pessoa muito simples mas com uma agradável conversa e tivemos um serão muito bom! No mês seguinte ele ganhou o prémio da SPA de melhor livro de poesia http://sentidodoslivros.blogspot.pt/---/afonso-cruz-alvaro-magalhaes-e-m-pires.html precisamente com esse livro! É bom ver que está a ser apreciado também noutras paragens!

e, adorei o teu texto! Faço minhas as palavras do ppl! Publica-os! :)

 

com um post sobre a primeira tertúlia, a de Janeiro.
Escolhi o formato de blog mais simples e acrescentei algumas coisas ao texto que tinha escrito...
Vejam se gostam (e avisem se detectarem alguma gralha, por favor).
http://clubeliterariogaia.blogspot.pt/

 

Boa!!! :)
Está muito bom, claro (pois se até está melhor, hehehhh!) e não, não detectei qualquer gralha.
Vai já para os meus favoritos até porque, como fã nº 1, tenho uma imagem a preservar, não é?!! ;)

 

Vou seguir-te! =D

 

marialeitora 4 yrs ago
:)
boa! vai prós favoritos, poistáclaro!

 

marialeitora 4 yrs ago
:)
boa! vai prós favoritos, poistáclaro!

 

Aposto que vais ter muitos seguidores :-)

 

Are you sure you want to delete this item? It cannot be undone.