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O caminho das aves : romance
by José Casanova | Literature & Fiction
Registered by laranjamarga on 4/3/2007
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Journal Entry 1 by laranjamarga on Tuesday, April 03, 2007

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Contracapa:

"Reina a calma em todos os lares e há paz nos espíritos e nas ruas, garante quem, por obrigação e hábito, de tão complexa matéria deverá possuir o elevado saber que ao rasteiro entendimento naturalmente escapa. Felizes os que tal juízo acatam como bom, porque deles é o reino da tranquilidade, sabendo que assim é por assim lhes ser dito desde tempos imemoriais, A minha política é o trabalho, Eu quero é ganhar o meu, Ricos e pobres sempre houve e há-de haver, Pobrezinhos mas honrados, Graças a Deus. Sensatas sentenças, palavras de portugueses de lei, dignos herdeiros dos nossos avós, ou dos nossos maiores, como também há quem diga, autênticos pilares da serena estabilidade nossa, muito bem! Todavia, e por via das dúvidas sopradas pelo desvario que varre o Mundo e ameaça a ordem natural das coisas, aferrolhemos portas e janelas e frestas e postigos, calafetemos todas as frinchas visíveis e invisíveis não vão os ventos da História tecê-las, O seguro morreu de velho, não é verdade?" 


Journal Entry 2 by laranjamarga on Wednesday, April 04, 2007

10 out of 10

Bela apologia da amizade, do amor, dos valores.

"Começa Eugénio a ouvi-los, primeiro incrédulo, incredulidade que dura pouco, o melhor é não duvidar muito tempo da veracidade das boas notícias, não vão elas escapar-se, não ser, transformar-se em sonho, sabe lá."

"São como as aves - pensa Francisco - Partiram juntos, regressam juntos."

"Triste e deprimente, porquê - pergunta-lhe Abílio que não se cansa de elogiar o espectáculo, É um espectáculo maravilhoso, e há nele qualquer coisa de novo, de nunca visto, acho eu - responde Francisco - No entanto, há também muito desalento, muito desencanto, muita desesperança, muita passividade, muito conformismo, muito vazio... Marta concorda: De facto, eles esperam o futuro - Godot - mas esperam apenas, não fazem nada para o encontrar e isso é, de alguma forma, angustiante."

"Brindam: Ao nosso filho, Ao nosso amor, Aos nossos amigos."

"Ouve-o segredar-lhe: Sabes de mim o que mais ninguém sabe... sabes-me."


Trabalhando na Biblioteca Museu República e Resistência foi um livro que se tornou precioso para o trabalho de referência.


Referências bibliográficas:

"Vasco, que não deu mais notícias, deixará sinais de di: um livro, Cantares, de Rosalía de Castro, e um bilhete que Francisco lê a caminho da reunião para que foi convocado: 'Disse-me quem sabe (conheci pessoa culta, em Vigo. Culta e não só...) que esta Rosalia não sei quê é a maior poetisa galega. Será? Aguardo que me digas'."

"Nessa noite começa a ler Os Thibault. Não dorme."

"Antes do jantar, Vasco abre os presentes: uma camisola de malha, metade verde-claro, a outra metade de um verde mais escuro e uma caneta Parker - ofertas da mãe e do pai; a prenda de Francisco é um livro: A Cidade das Flores - lê em voz alta - Política, aposto, Haverá alguma coisa que o não seja?"

"Francisco pega no livro - Uma Noite e Nunca, Urbano Tavares Rodrigues(...)."

"Estão no Trindade: À Espera de Godot, a peça recém-estreada, é o que os traz ali."

"Enquanto esperam pelo começo do espectáculo, Abílio e Marta discutem, entusiasmados, o último livro de Redol, A Barca de Sete Lemes."

"Sara está à porta de casa como que adivinhando a sua chegada, beijam-se furtivamente, ele entrega-lhe a prenda de aniversário - Seara de Vento, de Manuel da Fonseca."

"O Politzer ajudou-me (está a ajudar-me) muito, tal como Lenine (as tuas notas e os teus sublinhados explicaram-me melhor as preocupações que tens e que, repito-te, são as minhas). Quanto à 'Alma Encantada': como me fez feliz! como me fez sofrer!"

"Augusto dá-lhe a ler A Montanha Mágica. Depois Os Buddenbrook."

"Como foi possível viver estes anos todos sem ler Thomas Mann - pergunta-se. E, porque o tempo não lhe falta, passa a Stendhal, Maupassant, Tchekov."

"Falam e comem, Manuela tenta retomar, sem êxito, o tema Rocco e os Seus Irmãos, Marta elogia a impecável condução de Vasco, Luís aconselha um livro de Ítalo Calvino, acabado de sair, O Atalho dos Ninhos de Aranha, sobre a resistência antifascista na Itália (...)."

"Francisco, sentado sobre o bailique, retoma a leitura de Madame Bovary, que iniciara de manhã."

"Na sala receberá as prendas enviadas: de Abílio, A Guitarra Quebrada, de Pavese, com dedicatória ('O título é outro e a viola passou a guitarra. Mesmo assim estou certo de que gostarás desta versão portuguesa. Um abraço do tamanho da amizade'); de Vasco, A Peregrinação ('Leste-o, menino e moço, talvez te agrade relê-lo, homem. Um abração maior do que o tamanho do mundo. Parabéns do teu amigo'); mais livros de Marta, Maria Eduarda, Albano..."

"No dia seguinte, Jacinta irá à morada indicada onde deixará um saco com os livros pedidos por Francisco: todos excepto os Capitães da Areia que não conseguiu encontrar."

"Salta-lhe à vista Um Rapaz de Florença."

"Sabe de cor, de tantas vezes o ter lido, um longo poema de João Cabral de Melo Neto - 'Vida e Morte Severina' - inserto nas Poesias Escolhidas, prenda de aniversário de Abílio (...)."

"Tem um livro, fechado, sobre as pernas. Jubiabá."

"Toma, este é meu, este é da Mariana - diz Francisco, estendendo-lhe dois embrulhos, visivelmente um livro e um disco, La Question, Henry Alleg e Nara Leão, 'Pedro Pedreiro... penseiro, esperando o trem... e a mulher de Pedro está esperando um filho para esperar também...': canta Vasco desafinado."

"Pedro levanta-se de um salto, os outros olham-no espantados, ele justifica: Li um artigo sobre a amizade entre Marx e Engels, conheceram-se, ficaram amigos e começaram a trabalhar juntos... a pensar e a sonhar juntos... até à morte de Marx, uma amizade total, Para cada um deles o outro era... único - intromete-se Eugénio, aproximando-se e sorrindo."

"A seguir, distribui as prendas búlgaras: um pequeno urso de peluche que entrega a Manuela (É para o João, quando ele vier, trouxe um igual para o Marcos), uma jarra de cerâmica, um lenço de seda, um livro (este comprado em Paris: Lettres de Fusillés)."

"Agora, indica-lhes o quarto que vai ser o deles, ajuda-os a arrumar as roupas, abre o saco e tira os livros cujos títulos vai lendo, Ah o Romain Rolland! grande humanista!, trazem aqui uma bibliotecazinha bem escolhida, sim senhor, e discos... para que querem vocês os discos se não têm onde os tocar?"

"Não é necessário assinar - diz, escrevendo a dedicatória e entregando o livro a Jacinta: 'El socialismo e el hombre en Cuba', Che Guevara."


Referências gastronómicas:

"Bebem cerveja, eles, laranjada, ela."

"Bebe absinto, fuma du Maurier, continua a desenhar as belas argolas de fumo. Na sua mesa habitual, o Doutor Silvano lê o Diário de Notícias, fuma e bebe uísque."

"Vamos à Trindade beber uma imperial, pago eu - convida Maria Eduarda."

"Encomendam as bebidas, Francisco pede um prego que, depois, dividirá com Marta."

"O pai de Sara, construtor civil e a mãe doméstica, recebem-no com simpatia, convidam-no para almoçar, cozido de grão será."

"Jantam ensopado de borrego e prosseguem a conversa do almoço (...)."

"O jantar é no Oh Lacerda!, convite de Carlos Mota, vendedor a vender muito, portanto a ganhar bem. Magnífico bife - diz Francisco quando dá a primeira dentada."

"Ele sorri, levanta-se, beija dona Lucrécia, faz-lhe uma festa na cabeça, retoma o seu lugar e ataca a segunda sandes de fiambre."

"Pára novamente em Montemor, precisa de beber um café, comer uma empada, talvez. Enquanto come e bebe - quatro empadas, uma cerveja e dois cafés - vem-lhe à memória a conversa com Mariana e Moitinha durante o almoço, as inscrições que irão pintar esta noite."

"Chega a casa perto da meia-noite vê luz na sala e ouve vozes: dona Lucrécia e Eusébio, conversam animadamente, sentados à mesa onde pode ver-se uma chávena de café vazia, uma garrafa de Macieira quase cheia e um cálice meio cheio."

"Apurado para todo o serviço militar - geme, atirando o saco de lona para cima de uma cadeira e atirando-se, ele próprio, para outra - senhor Lourenço, traga-me uma groselha muito fresa e uma palhinha, se faz favor (...)."

"Cidália cozinhou uma feijoada que ela própria não se cansa de desmerecer - Tem falta de sal, Está pouco apurada, Devia ter um bocadinho de piripiri - mas que o dono da casa e o convidado acham excelente."

"O Café está quase vazio. Apenas um casal de meia-idade que, numa mesa ao canto da sala, fala em voz baixa; dona Ermelinda, mergulhada no seu secreto silêncio abstracto e bebendo pequenos goles de Canada Dry (...)."

"Na cozinha tem à sua espera um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo, que come com esforço."

"Sai a meio do filme, come uma sandes e bebe um galão numa leitaria da Alameda (...)."

"Quando regressa à sala vê, sobre a mesa, a encomenda trazida pelos familiares: carne assada, chouriços, um queijo flamengo, bananas, um bolo de mel, chocolates, cigarros."

"Em vez do prato tradicional, Manuela cozinhou um coelho à caçador que sabe ser o prato preferido dele, fez as farófias, as rabanadas..."

"Não necessitam de insistir para que Carteirista aceite jantar com eles e, os quatro, comem com apetite o bacalhau à Brás cozinhado por Jacinta."

"Comem cozido à portuguesa e conversam."

"Para o almoço, a mesa fora posta no quintal, sob o alpendre: toalha branca, pratos brancos, agora uma enorme terrina, branca também, fumegante e exalando o odor inconfundível da sopa de couves com feijão encarnado. Dois jarros de vidro cheios de vinho tinto e um terceiro com laranjada são como três pinceladas de cor atiradas sobre uma tela branca."

"Agora, Milu traz um tabuleiro grande com queijo, paio, presunto, pão, bananas, chocolates, sumo de laranja."

"Beberão várias bicas, mais tarde pedirão torradas e galões, depois voltarão às bicas."

"A mãe vai buscar o prato e os talheres que tinha guardado e ele serve-se abundantemente de carne assada e batatas fritas, que, mais do que comer, devora."

"Bebem café e comem aqueles bolos chamados sortido húngaro, a que Francisco chama feijões frades (...)."

"Regressa ao princípio da tarde, Avó Lucinda faz migas de espargos e ele observa-a, interessado, Estás aprendendo como se faz - pergunta-lhe ela, Já aprendi - responde ele."

"No sábado, Marta telefona-lhe: Vou fazer uma carne à Alentejana..., Eu levo o vinho, Não é preciso, a Mariana trouxe."

"Passeiam pela Feira, ora de mãos dadas, ora agarrando-se pelas cinturas, agora ele tem o braço sobre o ombro dela e diz-lhe segredos que a fazem rir, depois andam no carrocel, nos carrinhos de choque, comem farturas e torrão-de-alicante (...)."

"Mais tarde, depois de terem almoçado com a avó - migas de batata com entrecosto frito, para quem esteja interessado na ementa (...)."

"Sentados à volta da mesa, na esplanada, bebem imperiais, comem pregos e cachorros."

"À noite, comem com agrado o arroz de pato feito por Ilídio (...)."

"Desmotivados pela chuva que persiste, deixam passar a hora da Clássica, pedem sandes mistas, torradas, galões e ficam a conversar até o empregado os pôr na rua."

"Francisco fará o almoço: migas de batata com lombo de porco e entrecosto fritos."

"Francisco, na cozinha, acaba de fritar o lombo, o entrecosto e as rodelas de chouriço, junta o pingo da carne às batatas feitas puré que enchem dois grandes tachos de barro (cada um colocado sobre um bico de gás aceso), com uma colher de pau, mexe ora um ora outro dos tachos, até as migas ficarem soltas."

"Tumultos, incêndios, greves, um milhão de pessoas nas ruas de Paris, barricadas no Quartier Latin, a revolução na rua - exclama Eugénio, e acrescenta, pesaroso: E eu na Calçada da Picheleira, a comer tremoços e pevides e a beber cerveja."

"Jantar improvisado: Mariana comprou um frango e meio, assado, pão e um pacote de batatas fritas, e Francisco preparou uma salada."

"Comem cabrito assado no forno com batatinhas, bebem vinho alentejano (Tu não podes beber, por causa do menino - adverte ele, afastando a garrafa, ela insiste em beber só uma pinguinha, ele cede... pouco, contudo), depois comem laranjas algarvias (As melhores do mundo - garante Francisco, peremptório), finalmente, feijões frades e café."

"Enquanto comem uma jardineira de frango gostosa, apaladada (...)."

"Jantam na cozinha, apertados porque a mesa é pequena, Lima faz a apresentação do cozinhado - arroz de bacalhau bem acoentrado, pão e vinho tinto (...)."

"Os cozinheiros não conseguem impedir a ajuda de Jacques que faz questão em pôr a mesa, enquanto os outros preparam a refeição, simples aliás: bacalhau com batatas, um ovo para cada um, salsa e cebola picada, alhos, uma salada mista, pão e vinho."

"Tal pudéssemos organizar um pequeno bar, fazemos pastéis de bacalhau, caldo verde... - sugere Luísa, Se possível, um bom cozido à portuguesa - brinca Eugénio (...)."

"Comem bacalhau com batatas e couves, bebem vinho tinto, como sobremesa têm laranjas e arroz-doce, depois café."

"Os três na cozinha, preparam uma salada de atum, uma salada de tomate com muita sebola, põem a mesa, comem."

"Comem salsichas e ovos estrelados ao som de Debussy, Francisco levanta a mesa e vai lavar a louça, regressa à sala, encontra a mulher e o filho a trocarem segredos, substitui Debussy por Bruckner e senta-se à mesa a ler."

"Jantam um arroz de frango cozinhado por Lima (...)."

"Preparam a ceia possível: arroz de pato, feito por Francisco (sem as rodelinhas de chouriço em cima nem parece arroz de pato - lamenta), uma salada de alface, meia garrafa de vinho tinto, alentejano."


Referências musicais:

"Inspecciona o gira-discos que está em cima da secretária e o disco colocado sobre o prato - Ludwig van Beethoven, Quinta Sinfonia (...)."

"Peggy Sue, Buddy Holly - lê Francisco, na capa do disco - Eu não tenho um tipo de música, se gosto, gosto e é tudo."

"Mais tarde ouvem o Requiem de Mozart."

"Francisco aproxima-se dele: É bonito, isso que estás a cantar, Chama-se Meninos do Bairro Negro, é do Dr. José Afonso, ouvi lá no hospital e tem outra que é Vampiros - e canta: Em toda a parte poisam os vampiros, poisam nas calçadas..."

"Durante o jantar, falaram dos amigos, das prendas que trouxeram e entregaram à Manuela (sem que insistissem em falar com Vasco) - livros, discos, O Quinteto para Clarinete e Cordas, oferecido por Abílio, que ouvem agora, É, de facto, uma espécie de duelo entre o Clarinete e os instrumentos de cordas - diz Manuela (...)."

"Os Beatles e não só, também Zé Afonso, o Adriano, o Paredes, e os Verdes Anos, as pessoas nas ruas... (...)."

"De caminho, põe um disco: chegam as palavras, a música, a voz de Brel: 'Ne me quitte pas, il faut oublier... oublier le temps, les malentendus, et le temps perdus...'."

"Liga o gira-discos: é a 'Nona' de Beethoven: os violinos, violoncelos e trompas emergem do silência e logo se calam, o primeiro tema surge e começa a impor-se, a orquestra completa apresenta-o agora, forte, fortíssimo... - baixa um pouco o som (eleva-lo-á novamente no terceiro andamento), senta-se em frente ao amigo e fica à espera."

"Ouve Debussy, O Mar: Chegas e aí está um clarinete a dar-te as boas-vindas - diz, com um sorriso, saudando Francisco e apontando o gira-discos - Escuta estes 'Jogos de Ondas'... neste caso o violino é o vencedor... Repara como vai imitar as imagens desenhadas pelo clarinete... e como as trompas lhe respondem, agora.
Ficam em silêncio durante alguns minutos, ouvindo o ruído do mar contado pelos diversos instrumentos, depois as ondas agitadas trazidas pela orquestra em pleno, afastando-se lentamente e deixando atrás de si o marulhar sussurrado das águas azuis de diversas tonalidades..., Se quiseres ouvir o 'Diálogo entre o Vento e o Mar', ouvi-lo-emos, caso contrário, interrompemos aqui esta fascinante pintura musical do mar, Quero ouvir - diz Francisco, sentando-se."

"A seguir ao desfile vão ao Centro Rogier, onde haverá uma festa com stands das várias organizações: ali, a voz de Paco Ibañez, a seguir, a guitarra de Carlos Paredes, mais à frente Maria Farantouri canta Petroulias..."

"Les fla, les fla, les flamandes dansent san rien dire - cantarola Eugénio enquanto embala um cobertor Sole Mio.
Francesco, com a sua bata verde desabotoada e no seu francês italianado, responde-lhe: Les flamandes danses sans frémir, les fla, les fla, les flamandes (...)."

"A música de fundo é Verdi, 'Nabuco', o 'Coro dos Cativos', 'Va pensiero, sull'ali dorate'... canta Francisco, acompanhando o coro e gesticulando." 


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