Nove mil passos
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Nove mil passos
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«Francisco d`Ollanda - um dos primeiros humanistas portugueses - toma, no século XVI, a incumbência de encontrar uma solução para a sede crónica na capital do Reino. Mas várias adversidades abortam esta tentativa. A sua morte acaba, contudo, por não ser um obstáculo a que «acompanhe» e nos relate as peripécias da construção do Aqueduto das Águas Livres, Iniciada apenas no reinado de D. João V, na primeira metade do século XVIII. Sob a forma de espírito omnipresente e omnisciente, ele narra paralelamente - num tom intimista e humorístico - as intrigas da Corte, a libertinagem e o fausto da vida do rei, o despontar da Maçonaria eo quotidiano surrealista de uma sociedade que vacila entre as crendices e o terror à Igreja.» (texto da contra-capa) Apresentação do livro em 20.07.04, no Reservatório do Museu da Água/ Mãe de Água das Amoreiras, por Artur Portela: "O Aqueduto das Águas Livres onde estamos pode ser, no seu todo, a enorme coluna vertebral de uma memória. Da memória da obra concreta que foi, fazendo-se, o Aqueduto. Mas também da global memória de nós. De como somos. Dos materiais com que nos construímos. Da História cultural e política a que nos devemos. É-o, no caso. Porque Pedro Almeida Vieira, neste seu romance Nove mil passos , toma, evoca e efabuladamente narra esta grande obra de servir e de dar a beber, de matar a morte, matando a sede. Mas também, mais largamente, nos retrata, nas fatalidades culturais - improdutivos e transitários que então, ainda, e já, éramos -, nos gestos e nas paixões e nos interesses e nas obediências confessionais e na luta que travámos para fazer e não fazer, decidir e indecidir, acelerar e adiar esta grande coisa que foi o Aqueduto das Águas Livres. Desde antes. Desde quando Francisco d`Ollanda propôs, na sua Da Fabrica Que Falece à Cidade de Lisboa , que se rompa da Cidade o cerco que a ela a sede pôs. Desde então até quando investimos e quase esgotámos o que pelo mar, do Brasil, trouxemos, no teatro de ver, e de poder, do Barroco, esse teatro já europeu de Estados-teatros. O estaleiro do Aqueduto somos, assim, nós. Costas quentes de ouro transatlântico, balcão comprador de modas e de traçados virado à Europa. Entretanto a sede. O escândalo da sede. Não podia ser, não foi. Mas foi, como por este livro se vê, o cabo dos trabalhos. A guerra na paz há tão pouco conquistada. Mas é também este romance de Pedro Almeida Vieira uma metáfora. Sendo aqui a água a vida, e a pedra a vontade. A água como espelho e como carne. A água que se bebe e se desvia e se inventa. Se trapaceia e se negoceia. Se vende e se rouba e se tributa. Água de que estes nove mil passos são estrada. A pedra de que este Aqueduto é rio. Por junto, teatro de nós, em lama, água sólida e pedra líquida. Sendo toda a Terra a terra que se arrasa, e se desfaz, e se fura, e se mina, por baixo dela se indo, a terra que se conserta, e se transpõe, sendo ela também esse acto poético e dramático, da Engenharia. Engenharia, essa invenção, em directo, do futuro. Esse salto simultaneamente mortal e vital. Porque constrói, em larga medida descobrindo o quê e o como, e com que instrumentos, que ali mesmo, no estaleiro, à medida que constrói, concebe e fabrica. Engenharia que, nesta parabólica fábula de Pedro Almeida Vieira, empresta as mãos à Arquitectura. E vice-versa. Para fazer a paz e a guerra. E para fazer, por exemplo em Mafra, os cenários de pedra com voz de bronze que são, do lado de Deus, a sua política humana, e, do lado dos Estados, a sua política divina. Mafras e safras. E travejados festejos de rua. Coisas em que se revezavam, engenheiros militares, arquitectos de fontes e jardins e arquitectos de efémeras comemorações. No caso, singularmente, para ir romper o cerco da sede. Para ir pôr cerco ao cerco. E passar por cima, em cantaria. Coisa de interesse tão geral que o Estado, isto é, o Rei, desconfiava, e por isso ora atribuía ora desatribuía ora suspendia ora atrasava ora tributariamente aproveitava ora pilhava. Ouvindo muitos e escolhendo, de todos, o que ele menos indesejava. Metáfora, este livro, também por tudo isto política. Objectivo, assim, e, assim, pretexto este Aqueduto. Objectivo do engenheiro, que é Pedro Almeida Vieira e pretexto do ficcionista, que também é Pedro Almeida Vieira. Narrado aqui, fantasticamente, pelo renascentista Francisco d`Ollanda, para além da sua vida. Sendo ele, neste livro, a voz que inventa o futuro, isto é, a voz inventada que faz, deste de nós passado, dele futuro, a crónica. Digamos que Francisco D`Ollanda - assumindo o serviço como a medida de todos os homens e de todas as obras humanas - é perspectiva cultural e moral na fundamentação da obra e na trama romanesca. Sabendo-se que foi pelo Humanismo que, desde logo, erguemos os nossos aquedutos: Setúbal, Aveiro, Elvas, Évora, Torres Vedras, Óbidos. E, como diz este livro, pelo Humanismo se intentaram os aquedutos de Coimbra e de Lisboa. Cidade que dramaticamente, estupidamente, estava cercada pela sede. À vista do Tejo que é por onde o Atlântico nos chega e nos descobre. Sendo Francisco d`Ollanda perspectiva crítica, personagem e narrador. Narrador da vontade política e a sensibilidade cultural, do arrojo e do limite, dos olhos e da barriga, dos inquisidores de Deus e dos pedreiros livres, dos conventos fáceis e das árvores voadoras. Na dialéctica de pelo menos dois Portugais e de muitas mais paixões, e interesses. O Portugal cosmopolita, aberto, do jesuíta Padre João Baptista Carbone e o Portugal intestino do Prior de S. Nicolau, o fatalíssimo Padre João Antunes Monteiro. O Portugal do pré-iluminismo e o Portugal da Inquisição, sobre um fundo surdo de alquimia, hermética, cabalística e esoterismo. Tal como o Portugal onde, na ou para a Obra em causa, se travam de razões, de técnicas, de soluções, o arquitecto alemão João Frederico Ludovice, o italiano arquitecto Antonio Canevari, os nossos Sargento-Mor Manuel da Maia, Azevedo Fortes, o bravo Brigadeiro Silva Pais e o engenheiro militar Custódio Vieira, finalmente o húngaro Carlos Mardel. Digamos que já, circulante e por algumas vias comunitária, a Europa. Tudo isto numa super-produção literária, com centenas e centenas de figurantes: mestres-pedreiros, alvenéis e carpinteiros, serralheiros, boieiros, peneireiros, brocadores, padres, frades, bufos, militares, cirurgiões-torturadores, labregos e mirones citadinos. Multidão de que se destaca, mulherengo, odivelense, freirático, o Rei. Esse anti-herói pomposo, paspalhão, sorna e cobrador, habilmente emboscado na etiqueta e na pragmática. Que é ele quem, e onde, e por quem, tudo e nada se faz. Uma reportagem dramática e colorida, a da vida e a do poder, num Portugal que paga a diamantes contados os versalhismos e as transferências de militares e de arquitectos italianos - não esquecendo que este romancista que é engenheiro também é jornalista. Até ao salto maior e mais arriscado desta estrada de água, o lanço do voo de cantaria sobre o Vale de Alcântara, com a sua desmesura e o seu então escandaloso barbarismo gótico. Que reproduzirá, diz a inventiva, o pôr de mãos e de dedos em forma de coração invertido da bela Serafina, estalajadeira do Monte Santo, isto é, Monsanto, paixão do engenheiro Custódio Vieira. E que conquistará a anuência de D. João V chegando-lhe, diz a ficção, em maqueta comestível, em bolo de amêndoa. Não desarma, porém, por que nos está, digamos, na massa do sangue, a intriga. Sobretudo a do prior de S. Nicolau. Até que o narrador, o nosso Francisco d`Ollanda, se cansa e directamente intervém, fazendo justiça com a ajuda de Dante Alighieri. Romance assim histórico. Não um museu de papel superficialmente dramatizado, não uma reconstituição animada por um fio de intriga, não um cortejo de pitorescos e de anedotas, não uma pré-telenovela. Nem o cenário de um século nem o telão de uma época. Mas um romance ele mesmo, na - cá está ela outra vez - arquitectura romanesca, no respiro cultural e social. Na inventiva, na descoberta, na surpresa, na emoção, no riso e nas lágrimas, a par e passo da sua construção, do seu desenvolvimento, do seu ritmo e da sua linguagem. Na sua paradoxal datada intemporalidade. Duas obras barrocamente, e não apenas barrocamente, nos dizem: o Aqueduto das Águas Livres e o Real Convento de Mafra. O serviço e o aparato. Duas obras que projectam dois Portugais: o do homem concreto e medida de si e do mundo e o homem esmagado pelo teatro dramático e operático de Deus e do Seu delegado poder no Fidelíssimo Magnânimo. O Portugal da demanda humanística e o Portugal do Barroco. O Portugal da Nação e o Portugal do Estado. Tão decisivamente expressivas as obras, o Aqueduto e o Convento de Mafra que - pudera não! - já têm romances. Cada uma o seu. Sendo este, cujo lançamento nos junta, hoje, aqui, evidentemente um deles. Duas falsas - e ainda bem que falsas - monografias ficcionadas. Porque não é somente, nem sobretudo, de agigantadas obras que tratam. Sequer do nosso século XVIII e das suas setecentas e cinquenta mil famílias. Mas de Portugal e dos Portugueses. E, assim sendo, da natureza humana, como toda a grande ficção. Falo, naturalmente, do Memorial do Convento , de José Saramago, e do Nove Mil Passos , de Pedro Almeida Vieira." |
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Released 8 yrs ago (3/22/2005 UTC) at Bookring in Bookring, A Bookring -- Controlled Releases WILD RELEASE NOTES:
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A escrita deste senhor é muito pouco fluida e organizada, a sua leitura é mais uma luta árdua do que um prazer mas, se calhar, sou eu que já li muitos romances históricos e espero que eles 'andem' numa certa direcção e este vai noutra. A história é muito interessante e tinha um potencial enorme, que pena tive... Os amoques de Sua Majestade ainda me fizeram sorrir. Um povo sem sede é um povo feliz... Façam um favor a vocês próprios e depois de lerem este livro vão ler 'Uma aventura em Lisboa' de Isabel Alçada e Ana Mª Magalhães... Curiosidades para quem acha piada a estas coisas: Além do Aqueduto das Águas Livres existem, no nosso país, outros sete aquedutos. São eles: Aqueduto de S. Sebastião (Coimbra), Aqueduto da Osseira (Óbidos), Aqueduto da Fonte dos Canos (Torres Vedras), Aqueduto do Convento de Cristo (Tomar), Aqueduto do Convento (Vila do Conde), Aqueduto da Amoreira (Elvas) e o Aqueduto da Água da Prata (Évora). |
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Para não acharem que eu estou a desmoralizar a leitura aqui vai um bombom para ajudar a manter o interesse: A construção do aqueduto das águas livres foi considerada pela população de Lisboa como um glorioso feito do povo, porque foi o próprio povo que pagou a obra com os seus impostos, apesar de o Rei D. João V ser muito rico. Apesar de todas as polémicas à volta da obra, em 1748 as águas já corriam no novo aqueduto mas só em 1799, 67 anos depois do início da construção, é que a obra foi considerada totalmente acabada. Em 1755 a cidade, com cerca de 250 mil habitantes foi arrasada por um terramoto, maremoto e muitos incêndios. Não se sabe ao certo quantas pessoas morreram. O Aqueduto, porém, resistiu intacto ao violento tremor de terra e apesar de nos dois séculos seguintes se terem construído mais condutas para trazer outras águas para Lisboa, o Aqueduto das Águas Livres funcionou até 1968. sua última missão foram alguns abastecimentos de pequena escala na região de Sintra. Actualmente já não funciona como aqueduto, mas está aberto a grupos de pessoas que queiram visitá-lo, percorrê-lo a pé e conhecer a sua história. Mais em: http://www.geocities.com/Athens/Atrium/2046/aqueduto.html |
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