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O Delfim
by José Cardoso Pires | Romance
Registered by prytkov on Thursday, October 02, 2003
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Journal Entry 1 by prytkov on Thursday, October 02, 2003

9 out of 10

O Largo

Visto da janela onde me encontro, é um terreno nu, todo valas e pó. Grande de mais para a aldeia - é facto, grande de mais. E inútil, dir-se-á. Pois, também isso. Inútil, sem sentido, porque raramente alguém o procura apesar de estar onde está, à beira da estrada e em pleno coração da comunidade. Tal como um prado de cardos, mostra-se agressivo, só domável ao tempo; e se não pica repele, servindo-se das covas, dos regos das chuvas ou da poeirada dos estios. Um largo, aquilo a que verdadeiramente se chama largo, terra batida, tem de ser calcado por alguma coisa, pés humanos, trânsito, o que for, ao passo que este aqui, salvo nas horas da missa, é percorrido unicamente pelo espectro do enorme paredão de granito que se levanta nas traseiras da sacristia. Diariamente, ano após ano, século após século, essa muralha, mal o sol se firma, envia a sua sombra para o terreiro, arrastrando uma outra, a da igreja. Leva-a envolvida, viaja com ela pelo deserto de buracos e de pó, cobre o chão, arrefece-o, e ao meio-dia recolhe-se, expulsa pelo sol a pino. Mas a tarde é dela. A tarde a sombra recomeça a invasão, crescendo à medida que a luz enfraquece. Tão escura, observe-se, tão carregada de hora para hora, que parece uma mensagem antecipada da noite; ou, se preferirem, uma insinuação de trevas posta a circular pela muralha em pleno dia para tornar o largo mais só, deixando-o entregue aos vermes que o minam.

O Delfim




"Embora sofrendo influências iniciais do neo-realismo, José Cardoso Pires encontrou desde cedo um timbre de voz pessoal, que renovaria a ficção portuguesa e haveria de culminar neste livro, considerado por muitos a sua obra-prima: com uma escrita cirúrgica e avessa ao derrame sentimental, O Delfim conta-nos a investigação meticulosa, quase jornalística, de um crime passional cuja verdade permanece nebulosa e envolta num mistério por desvendar.

"Deslocando-se à fictícia aldeia da Gafeira – perto de uma lagoa que esconde o segredo do que realmente aconteceu –, o narrador vai procedendo a conjecturas a partir de testemunhos exteriores e da sua própria intuição, escavando e interrogando um passado recente onde avulta a sombra tutelar da família Palma Bravo, projectada nas figuras do criado Domingos, de uma mulher ainda jovem e fascinante, Maria das Mercês, morta em estranhas circunstâncias, e do seu marido, o engenheiro Tomás Palma Bravo, personagem que adquire um estatuto mítico na medida em que simboliza o marialvismo português, mas para lá da qual se tece em filigrana o destino de uma sociedade tradicional em decomposição."

Instituto Camões




Excerto de um texto de Luís Miguel Cardoso:
"N ‘ O Delfim, Cardoso Pires envereda por um caminho narrativo que o torna figura de reconhecido destaque no panorama do romance português contemporâneo. Analisando a sua obra de 1968, confessa: "Em O Delfim, despisto-me numa sucessão de planos dialécticos." Com estas palavras, define o escritor com aparente facilidade a estrutura profunda do romance que ressoa na alma do leitor com uma profusão poliédrica de ecos que nos fazem pensar no conceito de romance polifónico, como defendia Bakhtin, caracterizando a obra de Dostoievsky.

Em O Delfim, as pessoas encetam uma viagem de bruma e de perda de identidade, em solitário solilóquio, num convívio de singularidades e desencontros, não raro trágicos.

O narrador é o nosso guia neste labirinto de identidades e de consciências. Em Gafeira, perto da lagoa, cria-se um trio trágico: Tomás Manuel, Maria das Mercês e o criado. A morte envolve a figura feminina, que se suicida na lagoa, e o criado que aparece morto no tálamo. A figura central descobre-se: Tomás Manuel.

O marido e engenheiro é um homem em fuga. Refugia-se na sua casa da lagoa, em dor e agonia, sem ligações sociais nem laços com o tempo que o rodeia, retira-se para a memória dos antepassados e rodeia-se de cães, cavalos, caça, numa atmosfera de senhor feudal agonizante que teme a populaça de Gafeira.

O marido inseguro e trémulo, é um exemplo de machismo exibicionista, marialvismo, frustração existencial e refúgio num copo de whisky.

A estrutura diegética revela-nos um labor intenso e constante de Cardoso Pires. A sua prosa refulge de transparência existencial. Na verdade, pensamos nas considerações de Gaspar Simões quando releva a realidade das personagens, a sua verosimilhança, a sua estatura psicológica e a realidade dos ambientes que tornam o texto numa vitória sobre as suas próprias linhas e palavras e impõem como que uma outra realidade-real. Ou seja, a realidade narrativa respira de tal forma o ar da verosimilhança e da realidade que quase se torna mais rica em significado .

Este primeiro ângulo do romance, a sua hiper-verosimilhança, intersecta-se com um segundo ângulo: o lado parapolicial. O Delfim reflecte com precisão os novos caminhos do romance policial contemporâneo, na medida em que herda deste género a construção urdida pelo pormenor e pela sugestão, a capacidade de prender o leitor e a edificação textual centrada no testemunho, na interrogação, na dúvida, na esteira de um inquérito. Como afirma Eduardo Lourenço, "Uma das singularidades de Cardoso Pires foi a de conciliar a visão descontraída e ao pouco complacente das coisas e da vida tanto como uma espontânea sedução por certa tradição satírico-picaresca, com o paradigma do romance policial, apto como nenhum outro para dar corpo ao suspense necessariamente dramático, próprio de um inquérito e da solução do enigma que é simultaneamente, «caça ao homem» (Jornal de Letras, 4/11/98)."

Veja também:
Um delfim da escrita dialética e transparente

A ideologia da técnica na ficção de José cardoso Pires

 




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