O Delfim
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O Delfim
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Visto da janela onde me encontro, é um terreno nu, todo valas e pó. Grande de mais para a aldeia - é facto, grande de mais. E inútil, dir-se-á. Pois, também isso. Inútil, sem sentido, porque raramente alguém o procura apesar de estar onde está, à beira da estrada e em pleno coração da comunidade. Tal como um prado de cardos, mostra-se agressivo, só domável ao tempo; e se não pica repele, servindo-se das covas, dos regos das chuvas ou da poeirada dos estios. Um largo, aquilo a que verdadeiramente se chama largo, terra batida, tem de ser calcado por alguma coisa, pés humanos, trânsito, o que for, ao passo que este aqui, salvo nas horas da missa, é percorrido unicamente pelo espectro do enorme paredão de granito que se levanta nas traseiras da sacristia. Diariamente, ano após ano, século após século, essa muralha, mal o sol se firma, envia a sua sombra para o terreiro, arrastrando uma outra, a da igreja. Leva-a envolvida, viaja com ela pelo deserto de buracos e de pó, cobre o chão, arrefece-o, e ao meio-dia recolhe-se, expulsa pelo sol a pino. Mas a tarde é dela. A tarde a sombra recomeça a invasão, crescendo à medida que a luz enfraquece. Tão escura, observe-se, tão carregada de hora para hora, que parece uma mensagem antecipada da noite; ou, se preferirem, uma insinuação de trevas posta a circular pela muralha em pleno dia para tornar o largo mais só, deixando-o entregue aos vermes que o minam. O Delfim "Embora sofrendo influências iniciais do neo-realismo, José Cardoso Pires encontrou desde cedo um timbre de voz pessoal, que renovaria a ficção portuguesa e haveria de culminar neste livro, considerado por muitos a sua obra-prima: com uma escrita cirúrgica e avessa ao derrame sentimental, O Delfim conta-nos a investigação meticulosa, quase jornalística, de um crime passional cuja verdade permanece nebulosa e envolta num mistério por desvendar. "Deslocando-se à fictícia aldeia da Gafeira – perto de uma lagoa que esconde o segredo do que realmente aconteceu –, o narrador vai procedendo a conjecturas a partir de testemunhos exteriores e da sua própria intuição, escavando e interrogando um passado recente onde avulta a sombra tutelar da família Palma Bravo, projectada nas figuras do criado Domingos, de uma mulher ainda jovem e fascinante, Maria das Mercês, morta em estranhas circunstâncias, e do seu marido, o engenheiro Tomás Palma Bravo, personagem que adquire um estatuto mítico na medida em que simboliza o marialvismo português, mas para lá da qual se tece em filigrana o destino de uma sociedade tradicional em decomposição." Instituto Camões Excerto de um texto de Luís Miguel Cardoso: "N ‘ O Delfim, Cardoso Pires envereda por um caminho narrativo que o torna figura de reconhecido destaque no panorama do romance português contemporâneo. Analisando a sua obra de 1968, confessa: "Em O Delfim, despisto-me numa sucessão de planos dialécticos." Com estas palavras, define o escritor com aparente facilidade a estrutura profunda do romance que ressoa na alma do leitor com uma profusão poliédrica de ecos que nos fazem pensar no conceito de romance polifónico, como defendia Bakhtin, caracterizando a obra de Dostoievsky. Veja também: Um delfim da escrita dialética e transparente |
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