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Ora põe aqui o teu poema ... ... ...

"Ja esta tudo a dormir" é uma thread criada pela ArwenG, que "um Grilo" poeta transformou em poesia. Poesia nocturna, voltada para a noite , o sono e o sonho.

Mas senti necessidade de um espaço outro, onde coloquemos "Aquele" poema que nos tocou , independente do tema e do autor.Começo com uma poetisa , um daqueles meus amores imaginarios.

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"Ja esta tudo a dormir" é uma thread criada pela ArwenG, que "um Grilo" poeta transformou em poesia. Poesia nocturna, voltada para a noite , o sono e o sonho.

Mas senti necessidade de um espaço outro, onde coloquemos "Aquele" poema que nos tocou , independente do tema e do autor.Começo com uma poetisa , um daqueles meus amores imaginarios.
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Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...

E não sou nada!...

Florbela d'Alma da Conceição Espanca
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Paisagem

Paisagem

Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exalação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

Sophia de Mello Breyner Andresen
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Deu-me Deus o Seu Gládio, porque eu faça
A Sua santa guerra.

Sagrou-me Seu em génio e em desgraça
As horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e dourou me
A fronte com o olhar:
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer-justiça são Seu Nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do Gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha Alma!

Fernando Pessoa
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A vida continua

A vida continua
Algumas vezes, ela move-se
Move-se de um lugar
Um lugar para o outro

Agora, és um navio
Que navega para longe
Com bons ventos
Para um porto novo

Navegas para longe
Para longe de nós
Para um porto melhor
E isso é bom

O teu novo porto
É um bom porto
Bom para ti
Bom para nós

Nós estamos felizes
Que navegues para longe
Para um porto melhor
Para uma vida melhor

Está bem e não te esqueças
De navegar de volta
Uma vez ou duas
Ao teu porto antigo

Tem de ser
Uma vez ou duas
De vez enquando
Queremos dizer muitas vezes

Se te portares bem
Muito bem mesmo
Nós navegaremos também
Até ao teu novo porto

Uma vez ou duas
Mas apenas se
Se te portares bem
Muito bem mesmo

A vida continua
Algumas vezes, ela move-se
Move-se de um lugar
Um lugar para o outro

A vida continua
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Obrigado por este poema, cujo autor se adivinha . Contém um sentido de procura, de "ir mais longe" mas tb um de nostalgia das suas raizes. O poeta fala de si.
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lol que comentário poético
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O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

*

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

Alexandre O'Neill, in 'Abandono Vigiado'
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There are strange things done in the midnight sun
By the men who moil for gold;
The Arctic trails have their secret tales
That would make your blood run cold;
The Northern Lights have seen queer sights,
But the queerest they ever did see
Was that night on the marge of Lake Lebarge
I cremated Sam McGee.

By Robert W. Service
( Poema introdutorio do livro "Corto Maltese Sous Le Soleil de Minuit "
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Este sofá?!
Este sofá tem poderes

Vamos fazer algo
Vamos fazer algo rápido
Este sofá tem poderes
Poderes de absorção

O que posso dizer?
Este sofá é uma auto-estrada
Uma auto-estrada para o inferno
Cheia de boas intenções

Este sofá é acolhedor
Bem, é perfeito
Mas é o diabo
O diabo disfarçado

Se fico mais
Mais um minuto
Com este sofá
Ele vai sugar-me

Vamos sair
Sair ou qualquer coisa
Fazer algo longe
Longe desde sofá

Este sofá tem poderes
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Sim... estou a sentir mesmo os poderes do sofá. E compreendo o poeta pois também tenho um mágico sofá .

E esta thread esta a ter muitos poemas giros ..
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E à noite, a horas mortas,
Uma mulher senil, que anda a bater às portas
Dos tristes como tu, onde a miséria habita,
Há de cá vir talvez; e essa mulher maldita,
Ao ver os filhos teus sem pai e sem abrigo,
Deixando-te a dormir levá-los-á consigo.
E é melhor, é melhor! Pois de que serve andar
Um pai continuamente aí a trabalhar
Criando um filho, um beijo, um fruto da alvorada,
Para curvar-lhe o dorso ao jugo de uma enxada
Que pesa mais do que ele, o triste pequenino!
Se hão de ter afinal um mísero destino,
Andando, como tu, ao frio, ao vento, à neve…
Não te levantes, não!... Antes a morte os leve.

In “A Morte de D. João” de Guerra Junqueiro
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In that country the animals
have the faces of people:

the ceremonial
cats possessing the streets

the fox run
politely to earth, the huntsmen
standing around him, fixed
in their tapestry of manners

the bull, embroidered
with blood and given
an elegant death, trumpets, his name
stamped on him, heraldic brand
because

(when he rolled
on the sand, sword in his heart, the teeth
in his blue mouth were human)

he is really a man

even the wolves, holding resonant
conversations in their
forests thickened with legend.

In this country the animals
have the faces of
animals.

Their eyes
flash once in car headlights
and are gone.

Their deaths are not elegant.

They have the faces of
no-one.

Margaret Atwood,
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O INVERNO

Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.

Vem de sobretudo,
Vem de cachecol,
O chão onde passa
Parece um lençol.

Esqueceu as luvas
Perto do fogão:
Quando as procurou,
Roubara-as um cão.

Com medo do frio
Encosta-se a nós:
Dai-lhe café quente
Senão perde a voz.

Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.

In "Aquela Nuvem e Outras"
Eugénio de Andrade
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Exagerado e muito verdade :)


Mesmo, mesmo
Não ouças
Não ouças
O teu coração

O teu coração
É um mau juiz
Um juiz mesmo mau
Um juíz de carácter

O coração é
É um mentiroso
Um mentiroso como nenhum outro
O grande enganador

Quando o coração
O coração está apaixonado
É como um condutor bêbado
Um condutor mesmo bêbado

Um condutor mesmo bêbado
Demasiado lento para conduzir
Para conduzir tão rápido
Na estrada do amor

Mesmo, mesmo
Não ouças
Não ouças
O teu coração

Não ouças
O teu coração
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O poema de um romântico ..sem dúvida . E com uma certa semelhança formal ao "Inverno" do Eugenio de Andrade.

Não ouças, Não ouças, não ouças
o teu coração

e

velho, velho, velho
Chegou o Inverno

A poesia tem que se lhe diga ..sobre o poeta sobretudo. O primeiro é sem duvida um romantico :) Nice!

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Não conhecia. Fogo, esse gajo anda a copiar-me com décadas de antecedência. :P :)
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Estou a pensar escrever mais um poema sobre o amor. Qualquer coisa como "O Amor é uma droga". :)
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Ring out, wild bells, to the wild sky,
The flying cloud, the frosty light;
The year is dying in the night;
Ring out, wild bells, and let him die.

Ring out the old, ring in the new,
Ring, happy bells, across the snow:
The year is going, let him go;
Ring out the false, ring in the true.

Alfred, Lord Tennyson
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Não sei como me não lembrei de Tennyson mas, não sei porquê, pequete, imagino.te bem a mergulhar na época vitoriana. Tb sinto um certo amor/ódio (salvo seja) em relação a esta época.

Um dia tive de recitar uma parte de um poema de Tennyson e fiquei "fã". Teve uma vida familiar complexa que se reflecte na poesia ( pai e irmão com desequilibrio mental que ao tempo não tinha tratamento). E depois teve um grande amigo para avida (Arthur Hallam), para quem escreveu o poema "Break, Break, Break" quando este morreu.

A sonoridade desta poesia em ingles que aqui puseste é belíssima.

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Por alguma razão isto parece-me muito triste


Eu estou sempre apaixonado
Mesmo quando não estou
Eu estou apaixonado com alguém
Com alguém no futuro

Eu estou sempre apaixonado
Mesmo quando não estou
Eu lembro-me do amor futuro
Como se o amanhã fosse ontem

Eu lembro-me do amor futuro
Eu lembro-me de tudo
Como se o amanhã fosse ontem
Como se o future fosse uma memória


Eu estou sempre apaixonado
Um amor à distância
Um amor no futuro
O meu amor vive no futuro

Eu estou sempre apaixonado
Mesmo quando não estou
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Eu bem dizia que este poeta é um romântico... Por mais que negue :)

"O futuro é como uma memória" ... uau , esta é profunda ! Gostei. Não sei se não dava para um livro com o nome " A vida é uma paixão" :)
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Quanto mais descabida a metáfora melhor.
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Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
(Trecho de “Poema em Linha Reta”, de Fernando Pessoa)
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É simples ... todos somos bonzinhos porque nunca assumimos nada que seja feio , mesmo feio. Todos menos o Fernando Pessoa.. Cadê os outros diz o poeta ? mais ou menos esta ideia de que "sujidade" que vemos só nos outros ... não só não é sujidade, é humanidade, como quem nao a tem é porque a esconde. Claro, isto diz o poeta .....
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No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida.
No teu poema
Existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E aberta, uma varanda para o mundo.

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da senhora da agonia
E o cansaço do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva, a luta de quem cai ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha.
No teu poema
Existe um cantochão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano.

Existe a noite
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra e um só destino a embarcar
O cais da nova nau das descobertas.
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco, ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo mais que ainda me escapa
E um verso em branco à espera... do futuro.
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Olha árvores... É a canção do Carlos do Carmo . Bem bonito o poema e a canção.


https://www.youtube.com/watch?...
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Sim, eu sei :-)
Lembro-me de ser miúdo, de ouvir esta canção que foi à Eurovisão e de ter detestado :-)
Mas agora gosto porque a entendo.
Obrigado pela partilha, joaquim.
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Amor

Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís Vaz de Camões
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Love Burns

Love burns
Love burns
It really burns
It burns inside me

Love burns
It burns inside me
Like the sun
The sun above a desert

Love burns
It really burns
Like a thirst
A thirst without an end

Love burns
Love burns
It really burns
It burns inside me

Love burns
It burns inside me
Like a disease
An incurable disease

Love burns
It really burns
Like a wound
A wound that never closes

Love burns
Love burns
It really burns
It burns inside me

Love burns
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Ivo, consegues surpreender-me. Não apenas como poeta mas agora na musica. Gostaria de saber ( um dia ..) qual a banda e a musica associada ao poema.

A mim, este teu poema lembra uma bela canção : "Love Hurts" dos Nazareth. É a segunda vez que colocas aqui um poema teu que me recorda outro. Curiosa coincidencia.Aqui vai ( talvez o poema seja "menor" oumais musical que literario..mas é mesmo no estilo do que puseste) Este topico esta forte com 3 poemas de amor :)

Love hurts
Love scars
Love wounds and marks
Any heart not tough or strong enough
To take a lot of pain, take a lot of pain
Love is like a cloud, it holds a lot of rain
Love hurts, ..love hurts

I'm young,I know,
But even so
I know a thing or two, I learned from you
I really learned a lot, really learned a lot
Love is like a flame, it burns you when it's hot
Love hurts, ,,,love hurts

Some fools think
Of happiness, blissfulness, togetherness
Some fools fool themselves, I guess
They're not foolin' me
I know it isn't true I know it isn't true
Love is just a lie made to make you blue
Love hurts,.. hurts.. love hurts




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Já agora

Partilho um poema pateta que escrevi no outro dia.

O seu nome é "Planeta Cubo"

Uma dessas noites
Viajei para o Planeta Cubo

É um planeta que se move em quadrados
No espaço
Tem seis lados
Todos iguais
E o mar cai das suas arestas

Vivem muitas pessoas
E muitas coisas
No Planeta Cubo

No mar
Polvos quadrados resolvem
Cubos mágicos
É o seu jogo preferido

E na terra
Pessoas quadradas
Com mentes quadradas
Sentadas em cadeiras quadradas
Com rabos quadrados
Soltam PUNS
Puns cubistas

Sonham as pessoas quadradas
Com sonhos quadrados sobre
Triângulos
Círculos
Pentágonos
Mas no céu todas as nuvens são quadradas
E as gotas da chuva são quadradas também


8D
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Gostei muito disto, menina dos amores :-)
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Hehehe, ainda bem que gostaram ^____^
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Nem sei como deixei escapar estes "puns cubistas" :) Algo surrealista e gostei.
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Acho que não preciso fumar nada para ficar pedrado :)

Eu sonhei, eu sonhei
Que vivia realmente
Que vivia ate ao tutano
Até ao tutano da vida

Num momento não vi
Um momento depois eu vi
Eu vi beleza em tudo
Que sempre esteve lá

Depois eu olhei para mim
Eu realmente vi-me
Eu gostei do que vi
Havia beleza interior

Depois eu vi as pontes
As pontes que me ligam
Que me ligam a tudo
A uma flor ou uma estrela no céu

Eu comecei a dizer "Olá"
A rochas, árvores e pessoas
E o universo sorriu
O universo sorriu para mim

Eu sonhei, eu sonhei
Que vivia realmente
Que vivia ate ao tutano
Até ao tutano da vida

Comecei a ouvir
A música do universo
Sempre a mesmo e diferente
Feliz ou triste e sempre bonita

Depois algo em mim
Algo em mim começou a dançar
E, lentamente, tudo em mim dançou
Ao som da música do universo
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Parece mesmo um sonho... mas um sonho acordado. Gostei.
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Digo alto para a noite:
Se te apaixonas pela Lua
É porque nunca ela fica
longo tempo à tua rua


Respondeu-me alto a noite:
É que se nunca vejo o Sol !

Como posso então saber
Que não tem fim o amor ?
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É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugenio de Andrade
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Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa
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"No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta
E no planeta um jardim
e no jardim um canteiro
no canteiro uma violeta
e sobre ela o dia inteiro
entre o planeta e o sem-fim
a asa de uma borboleta."

Cecília Meireles em "Canção Mínima"
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Cresci a ouvir estes e outros e a imaginar como iria ser bom o futuro....

Que força é essa

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr´ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força p´ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p´ra pouco dinheiro

Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo

Não me digas que não me compr´endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr´endes

Sérgio Godinho
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Lembro-me bem
da canção também
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Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.

Não digas onde começa a terra.
Onde termina o Céu.
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde é Deus.

Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso.
Até a glória de ficar silencioso.
Sem pensar.

©Cecília Meireles
In Cânticos, 1982
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Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito dos seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever
Adília Lopes, "Obra"
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Também gosto :)
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Não conhecia esta poetisa... mas o poema é simplesmente bonito . E original ..

Também acredito " na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever"

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You are welcome to Elsinore


Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos a morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


Mário Cesariny
Pena Capital
Lisboa, Assírio & Alvim, 1982
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Ai, cometa, cometa, partiste-me todo
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Cântico negro

José Régio


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
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Poema de Aboul-Qacem Echebbi

Desejava poder viver isolado e em solidão
passando os meus dias nas montanhas e bosques
entre os pinheiros, sem preocupações terrenas que
me impedissem de ouvir a minha alma.
Esperaria a morte e a vida e ouviria atentamente
o discurso da infinita eternidade.
Cantaria com os rouxinóis no meio das matas
E ouviria o rumor dos regatos nos vales.
Falaria amavelmente com as estrelas e a alvorada,
com os pássaros, com o rio e com a doce luz do sol…
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Como é que deixei escapar este poema e este poeta é que é mesmo um mistério :)
Gosto de poesia árabe , sobretudo do periodo andaluz (Ibn- A'arabi sobretudo) e fiquei surpreso pelo lirismo deste poeta tunisino que de todo desconhecia . Obrigado Grilo
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Adorei, parece que o autor está a ler-me o pensamento... Quanto à tradução para Português fui eu que fiz por isso é normal que esteja manca...
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I wish I can live this life in my solitude and isolation
spending my days in the mountains and the woods
between the pine trees, not having worldly cares that
can shift the self from listening to the soul

I'd sing with the robins in the woods and listen to
the lapping rivers in the valleys
I'd speak lovingly to the stars and the dawn,
the birds and the river and the calm sunlight

A life lived for beauty and art, away from my
people and my country, not weary with the cares of people,
for they live a life of the still lifeless objects
----
where is this life for which I long?

where I can hear the lands barmaid singing and lapping,
and the echoes of the heart and the song of the singer
and the sounds and rustling of tree branches in their shade
and the scent of flowers, this is the life I praise,
I call for its glory and call for its brilliance

Translated by: Fatima Al Matar
( o mesmo poema mas em ingles , creio que completa algumas ideias do original arabe)
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NAZIK AL-MALAIKA (1926)


Yo


La noche se pregunta quién soy yo.

Yo soy su secreto profundo, inquieto

y negro, su secreto rebelde.

He escondido mi esencia en el silencio.

He envuelto el corazón en conjeturas.

Y me he quedado aquí, pálida, inerte,

viendo cómo los siglos se preguntan

quién soy.


El viento se pregunta quién soy yo.

Soy un soplo asombrado, renegada del tiempo,

y, lo mismo que él, no tengo sitio.

Seguimos caminando sin final,

pasando eternamente, y al llegar a la cumbre,

encontramos tan sólo el fin de la miseria;

entonces, el vacío.


El tiempo se pregunta quién soy yo.

Como él, una orgullosa que devora las eras,

y las dota de vida nuevamente.

Creo el lejano pasado

de una esperanza fácil, seductora,

para volver yo misma a sepultarlo.

Y así poder forjarme un ayer diferente,

y de helado mañana.


La esencia se pregunta quién soy yo.

Como ella, marcho fija en las tinieblas,

sin que nada la paz me proporcione.


Yo sigo preguntando, y la respuesta

sigue siendo también un espejismo.

Y aunque la creo cercana -como siempre-

al llegar a su lado, se ha disuelto.

Desaparece. Muere.


Pena que em Português não se encontre nada. Tenho de ir aprender árabe...
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NAZIK AL-MALAIKA (1926)
Pena que em Português não se encontre nada. Tenho de ir aprender árabe...



:)
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Símil del viento

Te sentí, como el viento, cuando pasabas ya;
como el viento, que ignora si llega o si se va...
Fuiste como una fuente que brotó junto a mí.
Y yo, naturalmente, sentí sed y bebí.

Llegaste como el viento, náufraga del azar,
con tus ojos alegres entristeciendo el mar.
Y, para que la tarde pudiera anochecer,
te fuiste como el viento, que no sabe volver...

Jose Angel Buesa
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Never to Return

Like wind, all things refuse to stay,
No lasting place is here;
All rosy cheeks will fade away,
Each smile - and every tear.

Why then be full of sorrow,
Distress and harm don't last;
Like leaves, they're gone tomorrow -
Time and man are soon past.

All vanishes away - away!
Your youth, your hope, and your friend.
Like wind, all things refuse to stay,
Never to return, only to end!

Hans Christian Andersen
23.08.1868
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Boa
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Sorri

A vida pode ser boa
Mesmo sem um sorriso
Mas é sempre melhor
Com um sorriso na cara

Sorri no verão quando
O sol brilha de felicidade
Sorri no inverno quando
Chovem lágrimas do sorri

Sorri sempre
Afinal as tristezas nunca
Mas mesmo nunca
Pagam as dívidas

E um sorriso é sempre
Uma luz mesmo no meio
Da noite mais escura
Na tempestade mais cruel

Um sorriso é sempre
Uma boa doença
Sempre à espreita de
Contagiar mais uma face

Sorri sempre
Afinal as tristezas nunca
Mas mesmo nunca
Pagam as dívidas

Sorri
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"Não quero, não
Não quero, não
Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Quero um cavalo só meu,
seja baio ou alazão,
sentir o vento na cara,
sentir a rédea na mão.

Não quero, não quero, não
ser soldado nem capitão.

Não quero muito do mundo:
quero saber-lhe a razão,
sentir-me dono de mim,
ao resto dizer que não.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.
Eugénio de Andrade
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Uma mulher quase nova
com um vestido quase branco
numa tarde quase clara
com os olhos quase secos

vem e quase estende os dedos
ao sonho quase possível
quase fresca se liberta
do desespero quase morto

quase harmónica corrida
enche o espaço quase alegre
de cabelos quase soltos
transparente quase solta

o riso quase bastante
quase músculo florido
deste instante quase novo
quase vivo quase agora

Mário Dionísio
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Uma tentativa de letra com base numa frase na Internet que não resultou. Porém, acho que tem piada. :)

Come to the dark side, we have cookies.


Come, come, come
Come to the dark side
It´s more fun
And we have cookies

Come over to dark
Come to the dark side
You know you want it
You want the dark side

In the dark side
Life is never boring
You meet interesting
Interesting people

In the dark side
You do more
More interesting stuff
And we have cookies

Come over to dark
Come to the dark side
You know you want it
You want the dark side

In the dark side
The sky is really
Is really the limite
In a bad way

In the dark side
You can really put
Your creativity to use
And we have cookies

Come over to dark
Come to the dark side
You know you want it
You want the dark side

Come, come, come
Come to the dark side
It´s more fun
And we have cookies

And never forget
We have cookies

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Este "dark side" está mesmo giro e lembrou-me um poema um pouco mais "dark"
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Não é só por ser noite de halloween e estar a precisar de exorcizar fantasmas ( quem não precisa ...). Mas recordei um poema que é dos textos mais impressionantes que já li.
Eis como termina :

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demónio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demónio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demónio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

Edgar Allan Poe ( tradução de Fernando Pessoa)
Versao completa ( vale a pena) http://clubedalinguaport.blogspot.com/---/poemao-corvo-de-edgar-allan-poe.html
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Há dias em que a veia poetica me invade e lá venho eu por aqui :) Este é bem bonito.

"O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar..."

Fernando Pessoa
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Ontem, no meu "clube de leitura" analisamos uma entrevista maravilhosa a George Steiner (de que falei aqui ao lado). A dada altura fala-se num episódio fantástico em que Pasternack, desafiando Estaline, recita de cor o soneto nº30 de Shakespeare. Fica aqui numa tradução lindíssima de Vasco de Graça Moura:

"Quando em meu mudo e doce pensamento
chamo à lembrança as coisas que passaram
choro o que em vão busquei e me sustento
gastando o tempo em penas que ficaram.
E afogo os olhos (pouco afins ao pranto)
por amigos que a morte em treva esconde
e choro a dor de amar cerrada há tanto
e a visão que se foi e não responde.
E então me enlutam lutos já passados,
me falam desventura e desventura,
lamentos tristemente lamentados.
Pago o que já paguei e com usura.
Mas basta em ti pensar, amigo, e assim
têm cura as perdas e as tristezas fim."
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Ontem, no meu "clube de leitura" analisamos uma entrevista maravilhosa a George Steiner (de que falei aqui ao lado). A dada altura fala-se num episódio fantástico em que Pasternack, desafiando Estaline, recita de cor o soneto nº30 de Shakespeare. Fica aqui numa tradução lindíssima de Vasco de Graça Moura:

"Quando em meu mudo e doce pensamento
chamo à lembrança as coisas que passaram
choro o que em vão busquei e me sustento
gastando o tempo em penas que ficaram.
E afogo os olhos (pouco afins ao pranto)
por amigos que a morte em treva esconde
e choro a dor de amar cerrada há tanto
e a visão que se foi e não responde.
E então me enlutam lutos já passados,
me falam desventura e desventura,
lamentos tristemente lamentados.
Pago o que já paguei e com usura.
Mas basta em ti pensar, amigo, e assim
têm cura as perdas e as tristezas fim."



e o tal episódio conta-se assim:

Em 1937, no Congresso dos escritores soviéticos - foi o pior ano, um dos piores, todos os dias desapareciam pessoas como moscas - disseram a Pasternak: "se tu falas, eles prendem-te, e se tu não falas, eles prendem-te, por insubordinação irónica". Estavam presentes duas mil pessoas, e Jdanov - esse estalinista assassino, esse polícia assassino - no palanque. O encontro durou três dias, e cada discurso era "obrigado ao irmão Estaline", "obrigado ao pai Estaline", "obrigado ao modelo de verdade leninista-estalinista". E nem uma palavra de Pasternak. No terceiro dia, os amigos disseram-lhe: "Não tens hipóteses, eles vão prender-te. Por favor, seria bom que todos te ouvíssemos e que dissesses algo que pudesse ficar para sempre connosco". Como sabe, ele era alto, tinha mais de um metro e oitenta, e era incrivelmente belo. Quando Pasternak se levantou, toda a gente percebeu. Ele levanta-se - dizem-me que se pôde ouvir o silêncio até Vladivostok - e diz um número. Um número ... E as duas mil pessoas levantam-se. Era um número de um soneto de Shakespeare, de que ele tinha feito uma tradução, e que os russos dizem ser, com a tradução feita também por Puchkin, um dos seus maiores textos literários. "Quando sinto a lembrança de coisas passadas", um soneto de Shakespeare dito de memória. E todos o recitaram de cor, as duas mil pessoas, na tradução de Pasternak. Ficou tudo dito. Ficou dito: "Vocês não nos podem tocar, vocês não conseguem destruir Shakespeare, vocês não conseguem destruir a língua russa, vocês não podem destruir o facto de que sabemos de cor o que Pasternak nos deu". E não o prenderam. É uma grande história. "Quando sentado em meu silente pensar / sinto a lembrança das coisas passadas" ... "Quando sentado em meu silente pensar". Dizem-me que em russo é igualmente mágico, igualmente mágico.

Esta tradução do VGM ainda é melhor, parece-me...
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Ele levanta-se - dizem-me que se pôde ouvir o silêncio até Vladivostok - e diz um número. Um número ... E as duas mil pessoas levantam-se. Era um número de um soneto de Shakespeare... E todos o recitaram de cor, as duas mil pessoas, na tradução de Pasternak. Ficou tudo dito..


Fabuloso. Fico a pensar se hoje em dia isso era possível, que uma multidão inteira, se levantasse e dissesse de cor um poema, ou antes, a tradução especifica de um determinado poema.
Obrigada por partilhares esta história.
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Ele levanta-se - dizem-me que se pôde ouvir o silêncio até Vladivostok - e diz um número. Um número ... E as duas mil pessoas levantam-se. Era um número de um s E todos o recitaram de cor, as duas mil pessoas, na tradução de Pasternak. Ficou tudo dito..


Fabuloso. Fico a pensar se hoje em dia isso era possível, que uma multidão inteira, se levantasse e dissesse de cor um poema, ou antes, a tradução especifica de um determinado poema.
Obrigada por partilhares esta história.


Concordo. É maravilhoso. Mas penso também que hoje seria impossível. Talvez voltem tempos semelhantes, infelizmente. O ser humano tem aprendido pouquíssimo com sua História.
Agradeço, também.
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Não me tragas toda a verdade,
não me tragas o oceano para apagar a minha sede,
não me tragas o céu quando te peço luz,
mas traz-me um brilho, uma gotinha, uma penazinha
igual à que os pássaros trazem uma gota de água do banho
e o vento um grão de sal.

På Ørnetuva, 1961 Olav H. Hauge

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